Por Otávio Marchesini — Espresso Italia
Em uma noite que misturou experiência, recuperação e talento emergente, a Itália alcançou a terceira medalha olímpica da sua história na patinação artística ao conquistar o bronze no team event de Milano Cortina. O pódio em casa, esperado por muitos e construído com calma, traduz uma narrativa esportiva que vai além do resultado: é a síntese de gerações, instituições e escolhas técnicas que mantêm o país competitivo em um esporte onde tradição e reinvenção caminham juntas.
O conjunto convocado não foi fruto do acaso. Reunindo veteranos e jovens promessas, a delegação italiana mostrou equilíbrio entre solidez e risco: as duplas de dança e artística serviram de âncora; os solistas, da validação técnica e da surpresa. Entre eles, Marco Fabbri e Charlène Guignard representaram a continuidade. Em sua quarta participação olímpica, o casal — companheiros de pista e de trajetória — trouxe a maturidade competitiva necessária para estabilizar a pontuação italiana.
Treinados por Roberto Pelizzola e Barbara Fusar Poli, figura que carrega a memória do pódio italiano no passado, Fabbri (38 anos) e Guignard (36 anos) acrescentaram ao time a segurança de quem já viu ciclos olímpicos completos. Na dança curta haviam fechado em quinto lugar, ao som dos Backstreet Boys, e na apresentação subsequente emocionaram ao patinar ao som da trilha de “Diamanti”, conquistando o segundo lugar naquele segmento e consolidando a posição parcial da equipe.
Ao lado deles, a dupla de artístico formada por Sara Conti e Niccolò Macii provou ser a coluna vertebral do agrupamento italiano. Jovens — 25 e 30 anos, respectivamente — e com vínculo institucional nas Fiamme Oro, eles carregam uma história pessoal que acabou por fortalecer a parceria profissional: uma relação passada, transformada em profissionalismo e rendimento. Ambos terminaram o programa curto e o longo do team event em terceiro lugar, despertando aplausos num Forum de Assago que reconheceu o equilíbrio técnico e a força interpretativa.
Se as duplas ofereceram a previsibilidade necessária, a rampa de lançamento veio de Lara Naki Gutmann. A 23‑enne trentina, com um repertório que mistura leveza e carisma, evoluiu em relação às Olimpíadas anteriores — em 2022 ela participou apenas do team event — e cravou um recorde de temporada na estreia do evento, na abertura dos Jogos. Sua escolha musical — a trilha que acompanha a série sobre Lidia Poët — e a performance impulsionada pelo apoio da equipe resultaram em um terceiro lugar no curto; no livre, ao som da trilha de “O Tubarão”, fechou em quarto. A anotação curiosa sobre seu segundo nome, Naki — legado de um amigo ganês da família, que significa “primogênita” — recebeu aqui um significado simbólico: um amuleto de sorte que, de fato, beneficiou a equipe.
No masculino, a Itália optou por uma alternância tática: no curto, a escolha recaiu sobre Daniel Grassl, o jovem de 23 anos de Merano, cuja técnica e versatilidade têm sido recursos valiosos em competições por equipe. Já Matteo Rizzo — mencionado frequentemente pela determinação e pela trajetória que mistura resultados e retomadas — completou o leque de solistas que deram à Itália o conjunto de pontos necessários para subir ao pódio.
Importa enfatizar que a modalidade de equipe é relativamente recente no programa olímpico, introduzida em Sochi 2014. Na estreia, com a presença de Carolina Kostner em cena, a Itália ficou fora do pódio. Esta nova conquista, portanto, representa não apenas uma vitória pontual, mas o acúmulo de políticas de formação, investimentos em centros de alto rendimento e a capacidade de transformar pressões locais — as expectativas de uma host nation — em desempenho tangível.
Do ponto de vista institucional, o papel das forças esportivas estaduais, como as Fiamme Azzurre e as Fiamme Oro, é visível: oferecem estruturas, vínculos e estabilidade salarial que permitem aos atletas focar na longevidade do desempenho. Culturalmente, o bronze caseiro confirma uma narrativa que a Itália insiste em cultivar no gelo: longe de ser apenas um cenário secundário aos esportes de massa, a patinação artística aqui se enraíza em tradições regionais — especialmente no Norte — e em trajetórias pessoais que freqüentemente conversam com a história e a memória coletiva.
Mais do que uma noite de celebração, o resultado em Milano Cortina exige leitura atenta sobre sustentabilidade esportiva: qual será o próximo passo para converter esse bronze em consistência em individuais e duplas, em campeonatos mundiais e europeus? A resposta passa por renovação técnica, continuidade de treinamentos e capacidade de traduzir aclamação em políticas públicas que mantenham as pistas vivas depois que as luzes olímpicas se apagarem.
Em resumo, a medalha da equipe é a fotografia de um sistema que funciona em camadas: veteranos que sustentam, jovens que impulsionam, instituições que sustentam financeiramente, e uma plateia doméstica que, em Assago, testemunhou a transformação de expectativas em pódio. Para o esporte italiano, é um ponto de chegada e, simultaneamente, um estímulo para reavaliar ambições. Para os atletas, um reconhecimento do ofício. E para a cidade-sede, a confirmação de que o evento valeu o investimento simbólico e emotivo.
O resultado em quadros: bronze no team event, com participações decisivas de Fabbri/Guignard, Conti/Macii, Gutmann, Grassl e Rizzo. Uma conquista que soma história, técnica e sensação coletiva — o retrato mais fiel do esporte como espelho da sociedade.




















