MILÃO, 14 de fevereiro de 2026, 15:44 — Por Otávio Marchesini, Espresso Italia.
A World Curling deixou claro nesta sexta-feira que não vai recorrer ao VAR ou a repetições de vídeo para rever decisões de jogo que sejam tomadas durante as partidas: são definitivas. A posição da Federação surge em resposta às acusações de suposta trapaça durante o confronto entre Suécia e Canadá, disputado em Milano Cortina, e reafirma um dilema central do esporte moderno entre integridade e praticidade.
Em nota oficial, a entidade explicou que não é viável posicionar árbitros fixos para observar todas as hog line — as linhas transversais que delimitam pontos críticos dos lançamentos. Ainda assim, para responder à suspeita e aumentar a supervisão, a World Curling anunciou que, a partir da sessão vespertina do dia, dois oficiais passarão a circular pelo campo e observar com atenção os lançamentos. A medida é complementar e visa reduzir dúvidas sobre a legalidade dos movimentos sem alterar a natureza imediata das decisões em jogo.
A comunicação também informou que foi emitido um aviso verbal a um jogador por conduta verbal imprópria durante a partida — detalhe que revela tensão e fricção inevitáveis quando a integridade do resultado é questionada em praça pública.
Do ponto de vista institucional, a opção por não introduzir o VAR é coerente com a tradição do curling, esporte de forte enraizamento na Escandinávia e no Canadá, onde o ritmo e a fluidez da partida são parte do seu estatuto cultural. Ao mesmo tempo, a impossibilidade prática de vigiar todas as linhas de hog evidencia limitações logísticas: pistas longas, múltiplos pontos de observação e a velocidade com que decisões devem ser tomadas tornam a implementação de revisões em vídeo complicada.
Como analista, vejo na decisão uma tentativa de equilíbrio. Preservar a autoridade do árbitro central e a fluidez do jogo evita precedentes que poderiam transformar cada lance em um pequeno tribunal técnico, com impacto direto na experiência dos atletas e do público. Por outro lado, a introdução de árbitros móveis é um reconhecimento tácito de que mecanismos adicionais de supervisão são necessários para manter a confiança coletiva no resultado.
Há alternativas técnicas e operacionais que merecem discussão: uso pontual de replay apenas para infrações claras em fases decisivas do torneio, sistemas automáticos de monitoramento das hog lines ou aumento do número de oficiais em dias de partidas de maior apelo. Cada solução traz custo, complexidade e escolhas de valor sobre o que se prioriza — justiça absoluta, praticidade ou tradição.
O episódio em Milano Cortina funciona, portanto, como uma lente sobre a tensão contemporânea no esporte: a demanda por transparência e correção versus a preservação de um jogo que é, também, patrimônio cultural. A decisão da World Curling não encerra o debate, mas marca um passo administrativo e simbólico: manter as decisões humanas como última instância, ao mesmo tempo em que se busca reduzir zonas de sombra com presença reforçada de oficiais no gelo.
Seguirei acompanhando as próximas sessões do campeonato e as eventuais propostas de mudança regulamentar que possam surgir nas próximas reuniões da Federação.






















