Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em meio ao vento frio de Anterselva e à pressão inevitável dos Jogos de Milano Cortina, Dorothea Wierer ofereceu uma leitura serena do que foi, em termos práticos e simbólicos, a sua prova individual de 15 km: um respeitável quinto lugar que, nas suas próprias palavras, “à minha idade, não é de descartar”.
A atleta italiana, acostumada a carregar expectativas — pessoais e coletivas — não se esquivou das avaliações técnicas: um erro no tiro frustrou a possibilidade dos quatro “zeros” que sabidamente estariam ao seu alcance. “Um erro ao tiro pode acontecer”, disse Wierer, lembrando a dureza intrínseca do biathlon, modalidade onde precisão e resistência física se cruzam de forma inexorável.
Mais do que o resultado bruto, chamou atenção a franqueza da biatleta sobre a dimensão humana que acompanha a performance: confirmou ter sentido dificuldades nos esquis e citou, sem rodeios, o impacto do ciclo menstrual na prova feminina. “Nós, mulheres, enfrentamos esse período do mês que inevitavelmente pesa na performance”, afirmou, mas manteve o tom otimista: acredita que os próximos dias serão melhores.
Wierer não deixou de reconhecer o calor da plateia e o caráter coletivo do espetáculo esportivo. “Foi bonito sentir o apoio do público e até ouvir alguns técnicos estrangeiros torcendo ao longo do percurso”, comentou — uma cena que traduz o aspecto transnacional dos Jogos, quando rivalidade e admiração coexistem.
Do ponto de vista competitivo, a italiana saudou a conquista do bronze por Loro Hristova, a búlgara que surpreendeu. Para Wierer, ver países menores subirem ao pódio é a melhor propaganda que o biathlon pode ter: reforça a ideia de que o esporte transcende estruturas consolidadas e pode premiar talentos novos ou menos esperados.
Sobre a hegemonia francesa, a avaliação foi pragmática: “Os franceses são, simplesmente, os mais fortes no momento; estão vencendo tudo, e merecem”. Essa leitura de Wierer converge com um dos traços que tornam estes Jogos relevantes — a consolidação de dinastias esportivas em paralelo ao surgimento de outsiders que reconfiguram narrativas.
É relevante, para além da crônica de resultados, ponderar o que significa para a Itália ter uma competidora como Wierer: uma atleta que já não é promessa, mas um nó na história recente do biathlon nacional. O quinto lugar em Anterselva não apaga sua trajetória, nem diminui o valor simbólico de sua presença em alto nível numa competição que expõe, com brutal clareza, as assimetrias entre investimento, tradição e acaso.
Wierer saiu da prova com honestidade intelectual e um olhar voltado à continuidade: realista sobre o presente e confiante no futuro imediato. Em tempos em que o esporte funciona também como foro de representação social, sua declaração — sobre limites, esforço e surpresa — confirma que resultados são capítulos, não toda a narrativa.





















