Dorothea Wierer, figura central do biatlo italiano, destacou nesta sexta-feira em Anterselva a sua vontade de acompanhar de perto a colega de seleção, Rebecca Passler, encontrada positiva para doping na véspera das Olimpíadas de Milano Cortina. A declaração, contida em mensagem à imprensa local, sintetiza uma postura de solidariedade e cautela institucional num episódio que aviva debates sobre ética esportiva e proteção ao atleta.
“Obviamente no início foi um choque, mas nós conhecemos a Rebecca e sabemos que que tipo de pessoa ela é, que é competente”, disse Wierer, acrescentando que já havia lhe enviado uma mensagem privada. “Gostaria de ficar ao lado dela neste momento difícil. Nós só podemos esperar e lhe mandamos um grande abraço”, concluiu.
As palavras de Dorothea Wierer têm duplo significado. Por um lado, representam um gesto humano diante de uma colega que viu sua participação olímpica interrompida por uma acusação séria; por outro, refletem a complexidade institucional que cerca casos de doping em uma temporada olímpica: entre a pressa em proteger a integridade da competição e a obrigação de respeitar procedimentos e presunção de inocência.
O episódio ocorreu às vésperas da abertura dos Jogos de Milano Cortina, cenário em que a presença ou ausência de cada atleta adquire dimensão simbólica ampliada. Para o time italiano de biatlo, que chegou aos grandes palcos nos últimos anos com resultados destacados, o impacto reputacional é imediato, tanto no seio da equipe quanto na percepção pública. A resposta de companheiras como Wierer é um termômetro dessa tensão: solidariedade pessoal e pedido por esclarecimentos oficiais.
No plano prático, os procedimentos antidoping seguem seu curso conforme os protocolos internacionais: coleta de amostras, análise laboratorial e eventuais recursos e controle jurídico esportivo. Enquanto isso, a equipe técnica e a federação precisam gerir não só o aspecto competitivo — readequando esquemas e substituições, se necessário — mas também a comunicação com a mídia e com o público, preservando direitos e evitando julgamentos precipitadas.
Como repórter e analista, acredito que episódios desse tipo são indicadores de uma disciplina esportiva que atravessa um momento de contradições: avanços na detecção e na prevenção convivem com pressões por resultados e com a gama cada vez maior de substâncias e métodos que desafiam os reguladores. A atitude de Wierer, medida e humana, aponta para uma cultura de equipe onde a solidariedade não anula o compromisso com a lisura competitiva, mas lembra que os protagonistas são pessoas, com histórias e vulnerabilidades.
Até que haja um desfecho formal, a leitura pública e institucional deve privilegiar transparência e rigidez técnica, sem perder a dimensão humana do esporte. Entre o frio dos campos de tiro e o calor das expectativas nacionais, gestos como o de Dorothea Wierer ajudam a lembrar que a narrativa olímpica não é só de medalhas: é também de memórias, reputações e decisões que moldam o futuro do biatlo na Itália.






















