Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Na pista de Cortina d’Ampezzo, a dupla italiana voltou a transformar técnica e preparação em história: Andrea Voetter e Marion Oberhofer garantiram o ouro no duplo feminino de luge, assinando duas descidas praticamente perfeitas e oferecendo à Itália o terceiro ouro nos Jogos de Milão-Cortina 2026. É a 12ª medalha do país nesta edição e a primeira da jornada.
O triunfo surge como produto de uma conjunção entre investimento em infraestrutura, calendário de preparação e execução de alta precisão num esporte decidido por centésimos. Na primeira passagem a dupla já mostrou controle e velocidade, estabelecendo um tempo de partida recorde de 3,911. Na segunda descida, Voetter descreveu a performance como irrepreensível: “A segunda descida foi tão boa que não sei o que poderia ter feito melhor”.
O perfil psicológico da prova também mereceu destaque: Oberhofer contou que entrou calma, e que no momento da prova teve de repetir a si mesma a máxima profissional — “concentrati” — até a linha final. Essa disciplina mental, aliada a uma pista construída com padrões internacionais, fez a diferença.
O presidente do CONI, Luciano Buonfiglio, acompanhou o momento e colocou o ouro num quadro mais amplo: “Uma vitória particularmente importante também porque dá valor à realização da nova pista. Isso contribuiu para chegarmos preparados, mas este é um esporte che giocato sui centesimi”. Em outras palavras: a obra não é apenas concreto e gelo; é um capital simbólico que permite ao sistema esportivo italiano treinar e competir em casa, reduzindo a dependência de estruturas externas.
Do ponto de vista sociocultural, o resultado de Voetter e Oberhofer confirma uma tendência que venho acompanhando: quando um país consegue alinhar investimento institucional, formação técnica e redes locais de suporte, o esporte ganha capacidade de produzir performances que reverberam além do pódio. Estádios e pistas deixam de ser apenas cenários de competição e passam a integrar um projeto de memória coletiva e desenvolvimento regional.
Em pista, Alemanha e Áustria completaram o pódio, lembrando que a tradição centro-europeia no luge segue firme. Para a Itália, porém, o ouro em Cortina tem duplo significado: é medalha e é prova de que uma política de infraestrutura bem concebida pode devolver ao país não só resultados imediatos, mas também possibilidade de formação e atração de novos praticantes.
A celebração da equipe italiana, com atletas e comissão técnica cumprimentando as campeãs na saída da pista, resumiu o equilíbrio entre emoção e profissionalismo. Voetter, ainda incrédula, disse: “Não realizei totalmente que somos campeãs olímpicas”, lembrando que, além do brilho competitivo, o impacto humano dessas vitórias costuma sedimentar trajetórias.
Este ouro amplia a narrativa italiana em Milão-Cortina 2026: não é apenas contabilizar medalhas, é verificar como investimentos e escolhas estratégicas revertem em resultados que dialogam com identidade regional e política esportiva. Voetter e Oberhofer escreveram hoje mais um capítulo dessa história.





















