Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O gesto era simples e carregado de significado: o esquelista ucraniano Vladyslav Heraskevych anunciou que não competiria sem o capacete que trazia pintados os rostos de 22 vítimas do conflito na Ucrânia. O Comitê Olímpico Internacional (COI) não permitiu que a homenagem fosse utilizada em pista. O episódio, porém, ultrapassa a discussão técnica sobre regulamentos e se instala no terreno da memória coletiva e da representação simbólica do sofrimento de um país em guerra.
O capacete — obra de uma pintora ucraniana — fora concebido como um ex‑voto moderno: rostos impressos no carbono com a intenção de fixá‑los na memória, não como etiqueta de patrocinador que se desprende com o tempo. Heraskevych dizia carregar ali não apenas atletas mortos, mas uma narrativa de resistência. Quando regressou a Kiev, o atleta recebeu o abraço do presidente Volodymyr Zelensky: «A Ucrânia terá campeões e olímpicos — disse Zelensky —, mas a coisa mais importante que a Ucrânia tem são os ucranianos». Uma frase que resumia a tensão entre esporte e identidade em tempo de guerra.
O capacete foi pensado como uma pequena Hall of Fame, um objeto de museu simbólico ao lado de artefatos que contam a história do esporte mundial — da luva de Muhammad Ali à camisa de Maradona. Mas, para além do valor simbólico, a escolha de Heraskevych abria uma questão ética: quem eram aqueles rostos e por que importa recordar suas trajetórias?
Entre os retratos figuravam histórias que ilustram a brutalidade da guerra e a relação íntima entre esporte e destino nacional. Havia um jovem atleta que levou a bandeira da Ucrânia em pentatlo e decatlo em competições internacionais: depois de sonhar com Paris 2024, lesionou‑se, alistou‑se e morreu em Bakhmut em janeiro de 2023, poucos dias após completar 22 anos. Outra figura lembrada era uma promessa de 17 anos, com títulos nacionais e convites ao circuito internacional; uma chuva de mísseis interrompeu seus planos, tirando‑lhe a vida enquanto buscava refúgio próximo a Kharkiv.
Também estavam ali rostos de vítimas civis: uma menina de 11 anos morta em Mariupol durante o cerco de março de 2022, atingida por bombardeios enquanto estava em casa com seu pai; e atletas que, antes do conflito, preferiram a dignidade de recusar a competir sob a bandeira russa e depois se alistaram para defender suas cidades. Um desses esportistas tinha medalhas internacionais — prata nos Jogos Olímpicos da Juventude de 2018 e nos Europeus Sub‑22 de 2021 — e morreu no front, após voltar repetidas vezes ao combate mesmo ferido.
Não é apenas a contagem de nomes que choca, mas a história de rupturas: carreiras interrompidas, sonhos olímpicos convertidos em serviço militar, corpos que deixam registro nas memórias da família. O capacete de Heraskevych queria transformar rostos anônimos em testemunhos visíveis no espaço público da Olimpíada — um cenário onde, tradicionalmente, o esporte se proclama apolítico, mas onde as identidades nacionais se expressam com força.
A decisão do COI de proibir o uso do capacete lanço u m debate necessário. Regulamentos existem para preservar a neutralidade e a integridade das competições, mas há momentos em que a regra entra em choque com a demanda por memória e justiça. O gesto do atleta ucraniano não buscava confrontar adversários; era, antes, um ato de lembrança coletiva e de denúncia silenciosa.
Enquanto a discussão institucional prossegue, o capacete já cumpriu seu papel: tornou visíveis rostos que a guerra pretendia apagar e colocou o esporte no centro de uma conversa ética sobre memória. Para a Ucrânia, o episódio reforça a ideia de que estádios e pistas são também espaços de representação política e cultural — arenas onde se luta por histórias que merecem ser contadas.
Heraskevych voltou para casa com esse símbolo. O capacete — independentemente da permissão de um regulamento — já pertence ao patrimônio moral de um povo em resistência. E a pergunta que fica é menos técnica do que humana: em que medida instituições globais do esporte estão preparadas para lidar com o peso da história que atletas carregam sobre suas cabeças?






















