Valentino Rossi descreve como foi posar ao lado do Presidente Mattarella para o spot que abriu a cerimônia de abertura das Olimpíadas de Inverno Milano‑Cortina. Para além do gesto protocolar, o episódio traduziu um encontro entre memória esportiva e simbolismo institucional — um momento em que o esporte se transforma em representação coletiva.
“Foi uma honra, um momento belíssimo. E encontrei o nosso Presidente em ótima forma”, diz Rossi, ainda tocado pela experiência de partilhar alguns minutos em cena com o chefe da República. O filme, improvisado e bem-humorado, foi filmado em segredo num depósito da ATM — a empresa de transportes milanesa — no dia 2 de fevereiro, pouco depois do piloto regressar de testes na Indonésia.
O set foi tratado com discrição absoluta. Algumas sequências já haviam sido gravadas com dublês; caberia então aos protagonistas encerrar o trabalho. Rossi lembra-se de ter vestido o uniforme de tramviere, com o chapéu característico, e de ter acompanhado as filmagens da cena em que uma criança perde um ursinho no bonde e é o Presidente quem o recolhe. Depois veio o encontro que gerou a anedota mais comentada: “Ele me perguntou: ‘Será que conseguimos vencer os espanhóis?’”, conta Rossi, entre riso e surpresa, reproduzindo a informalidade do diálogo que circulou pelas redes.
O tom do episódio atravessa várias camadas. Há a leveza da surpresa — o público reagiu com carinho ao ver uma figura do esporte popular como Rossi interagir, quase a brincar, com uma autoridade republicana — e há também a potente imagem simbólica: um campeão que, já aposentado das pistas, ainda ocupa lugar no imaginário público e se transforma em mensageiro de uma cerimônia que pretende representar a Itália no palco mundial.
Rossi recorda ainda outro gesto do Presidente, desta vez dirigido à sua companheira: “Ao ver minha parceira, ele lhe disse ‘Auguri’”, relata, traduzindo o calor institucional num cumprimento simples e humano. O piloto confessa que já havia encontrado Mattarella em 2022, no Quirinale, num encontro coletivo com outros pilotos — entre os quais Pecco Bagnaia — mas este trabalho foi uma oportunidade rara de diálogo mais direto e íntimo frente a frente.
O resultado foi uma peça que circulou amplamente: segundo Rossi, a cerimônia foi vista por mais de dois bilhões de pessoas no mundo, e o clip foi compartilhado e comentado por milhões. “Recebi uma avalanche de mensagens dos amigos”, afirma. Para ele, a convocação feita por uma jovem produtora — “temos de te ter, não dá para imaginar outra pessoa” — foi uma gratificação que confirmou a sua longevidade simbólica.
Como repórter e analista, é necessário frisar que episódios assim funcionam em múltiplos planos: entretêm, claro, mas sobretudo atualizam narrativas — sobre identidade nacional, sobre a relação entre desporto e poder, sobre a memória de ídolos que se reinventam. A escolha de Valentino Rossi para encarnar esse pequeno mapa afetivo de Milão e do país não é inocente; é uma operação narrativa que mobiliza afetos, regionalismos e a ideia de continuidade entre passado e presente.
Rossi conclui com um balanço sereno: foi, diz, “um grande honor”. A cena, simples e humana, lembra que as imagens que atravessam grandes eventos não são só espetáculos técnicos; são também tratadores de imagem pública, responsáveis por traduzir o país para além dos resultados esportivos — em uma palavra, por contar quem somos ao resto do mundo.




















