Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
A fratura entre o clube e a praça tomou forma pública e simbólica em Trapani. Em reação ao anúncio de boicote da Curva Nord, o presidente Valerio Antonini optou por uma medida de forte provocação: pôs à venda os bilhetes do setor gradação a preço simbólico de 10 centésimos. A iniciativa, sem precedentes recentes no futebol italiano, precisa ser lida tanto como gesto empresarial quanto como sinal político dentro de um contexto local tenso.
O cenário do clube granata é composto por vários elementos de crise: a confirmação de penalizações na tabela — sete pontos a menos na classificação —, um rendimento da equipe irregular e a incerteza administrativa que paira sobre a temporada. Soma-se a isso a questão do estádio: expira hoje a convenção para o Provinciale e existe até risco de desocupação, o que transforma a alma física do clube em objeto de disputa entre cidade, propriedade e autoridades.
Os grupos ultras comunicaram nos últimos dias que ficarão fora do estádio “até data a definir”, afirmando que acompanharão a equipe externamente para manifestar repúdio ao modelo de gestão. Na nota, os torcedores apontaram o dirigente como figura central da crise: “entre os muitos responsáveis por esta conjuntura, a única pessoa não bem-vinda é ele… Valerio Antonini“, escreveram.
A resposta do presidente — além do preço simbólico — também incluiu a intenção de impedir a entrada de alguns líderes ultrà, o que amplia a tensão: mais do que atrair público, a manobra parece buscar uma garantia mínima de presença nas arquibancadas para a 29ª rodada da temporada. Resta saber se a cidade lerá o gesto como um gesto de aproximação ou como um novo capítulo de antagonismo.
É relevante situar essa escalada num quadro mais amplo de fragilidade estrutural do esporte local. Em dezembro, o basquete dos Shark já havia sido excluído do campeonato, consequência de problemas administrativos e financeiros. Agora, os percalços atingem o Trapani Calcio, que ocupa a 15ª colocação do girone C da Série C após a aplicação dos sete pontos de penalização por irregularidades administrativas.
Este não é somente um confronto entre dirigentes e torcida: é uma disputa pela representação da cidade. O Provinciale não é um mero palco esportivo, mas um espaço de memória coletiva em que se articulam identidade local, economia de torcidas e relações de poder. Quando a administração reduz o preço do bilhete a valores simbólicos, ela sinaliza duas coisas ao mesmo tempo: o desespero de encher um estádio e a tentativa de controlar a narrativa pública.
Do ponto de vista histórico e sociológico, episódios como este costumam ter desfechos que ultrapassam a lógica pura do jogo: podem reconfigurar alianças políticas, afetar patrocinadores e reabrir discussões sobre modelos de governança nos clubes italianos de menor porte. Para a torcida e para a cidade, a pergunta permanece: a quem pertence o clube — aos gestores ou à comunidade que o sustenta?
Em curto prazo, o que está em jogo é a leitura pública da iniciativa e a resposta popular no dia da partida. Em médio prazo, a continuidade da atividade esportiva e a integridade institucional do Trapani dependem de soluções administrativas e de um reencontro entre propriedade e torcedores que, até agora, não aparece no horizonte.
26 de fevereiro de 2026






















