As encostas das Tofane, em Cortina, voltaram a funcionar como palco de uma cena tão esportiva quanto social: o público que se reúne ao amanhecer para transformar uma prova técnica — o slalom gigante — numa manifestação de identidade e de afeto nacional. A presença maciça de torcedores, muitos deles instalados desde antes do nascer do sol, revelou que a competição é também uma cerimônia de afirmação coletiva em torno de nomes que carregam histórias e expectativas, como Federica Brignone e Sofia Goggia.
Chegar cedo virou regra para garantir os primeiros lugares no parterre ao lado da chegada. Vieram de toda a região: cidades do Veneto, como Padova e Treviso, vilarejos das Dolomitas e áreas próximas — da Val Pusteria a localidades como San Vito, Borca, Vodo e Pieve. Há também quem se deslocou de mais longe, como torcedores vindos de Bologna, e curiosos internacionais, inclusive um casal pai e filha mexicanos com o rosto pintado nas cores da bandeira italiana.
Entre os presentes, as preferências se dividem, mas a emoção é semelhante. Um grupo de fãs abriu espaço para a esperança de um pódio inteiramente nacional. “Eu sou por Federica”, diz Nea; “Eu prefiro a Sofia”, responde Martin, que também reconhece o valor simbólico da organização do evento: “Estão fazendo uma grande figura diante de todo o mundo”, comenta, lembrando como a paisagem, beneficiada por boa neve após um Natal tímido, ajudou a moldar o cenário.
O zelo dos torcedores foi narrado em pequenos episódios: Antonio e Michela partiram de Mareno di Piave às quatro da manhã para conquistar espaço atrás das transenes; Mattia e Roberta, de Gorizia, contabilizam presença desde a cerimônia de abertura em San Siro e não escondem o cuidado logístico — pegaram a navetta em Dobbiaco e elogiam o funcionamento.
Também se fazem notar grupos estrangeiros, sobretudo suíços e austríacos, cujo apoio sonoro às estrelas dos Estados Unidos foi expressivo. Contudo, no primeiro turno do gigante, as norte-americanas não corresponderam às expectativas do público internacional. O primeiro momento de entusiasmo entre os italianos veio com a performance de Lara Dalla Mea, que largou com o número 12: um primeiro intertempo que trouxe sonho e expectativa ao público, seguido por erros que a relegaram para fora do top 10.
À medida que se aproximavam as largadas de Federica Brignone e Sofia Goggia, a febre entre os espectadores subiu. Brignone subiu ao cancelletto com parentes na tribuna e a pista recebeu uma pausa breve para ajustes finos, gesto técnico que também serve como momento de suspense coletivo: silêncio pesado, respirações contidas, a consciência de que cada segundo ali tem leitura simbólica mais vasta do que o tempo de um percurso.
A cena nas Tofane diz muito sobre o papel do esporte como espelho social: clubes, torcidas e atletas convergem para reafirmar uma narrativa de excelência nacional, mas também para expor o modo como uma cidade turística se transforma em arena de autoridade simbólica. O que se vê em Cortina não é apenas torcida por resultados; é uma construção de memória coletiva — um gesto público que inscreve, nas encostas das Dolomitas, a ideia de uma Itália que se apresenta ao mundo organizada, resiliente e profundamente identitária.
Enquanto as voltas se sucedem e as bandeiras tremulam, resta ao observador um registro mais amplo: as competições contemporâneas continuam sendo eventos que articulam espetáculo, economia e pertencimento. E nas manhãs frias das montanhas, o público que chega cedo para ver sua campeã confirmar isso com a simplicidade de quem sabe que o esporte, afinal, é também ritual.





















