Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em gesto que mistura cortesia institucional e reconhecimento esportivo, o presidente do Veneto, Alberto Stefani, fez chegar um buquê de flores à campeã americana Lindsey Vonn, internada no hospital Ca’ Foncello de Treviso após a violenta queda sofrida na prova de descida livre disputada na pista Olympia delle Tofane.
O bilhete que acompanhou as flores sublinhou o tom comedido da mensagem: «Com sincera admiração e os melhores augúrios. Mesmo nas adversidades, o seu espírito continua a ser uma poderosa fonte de inspiração para os atletas e para todos os que acreditam nos valores da dedicação, do sacrifício e da perseverança». Palavras que soam tanto como solidariedade humana quanto como refrão de uma instituição que acompanha, com atenção, grandes eventos e os seus desdobramentos.
Ao analisar o episódio com a distância crítica que a prática longa do jornalismo esportivo permite, é inevitável ver nesta cena uma sobreposição de símbolos. Lindsey Vonn, aos 41 anos, é figura que transcende resultados: personifica uma narrativa de retorno e resistência, tanto para a fã-base internacional quanto para uma paisagem esportiva europeia que observa, com fascínio e apreensão, atletas veteranos tentarem prolongar carreiras sob risco evidente.
Os fatos são conhecidos: Vonn chegou à prova com um tutore no joelho esquerdo — ela havia rompido o ligamento cruzado em 31 de janeiro, durante uma descida em Crans-Montana. A tentativa de retorno terminou antes do que se esperava: a participação durou apenas 12 segundos; Vonn bateu o ombro numa porta e caiu poucas dezenas de metros à frente. O impacto levou ao transporte inicial ao Policlinico Codivilla de Cortina e, em seguida, ao transporte aéreo para Treviso, onde foi submetida a cirurgia para reduzir uma fratura deslocada na perna esquerda, a mesma já comprometida no incidente suíço.
Além do gesto de Alberto Stefani, o episódio reacendeu debates técnicos e éticos sobre a decisão de correr após lesões recentes. Nas arquibancadas e nas redes, vozes se dividiram: houve quem condenasse a exposição ao risco, chamando atenção para a responsabilidade das equipes e das federações; houve também quem exaltasse a determinação de uma atleta que tentou, novamente, escrever a sua história.
O real significado deste momento, porém, reside na complexidade das escolhas individuais frente a estruturas que moldam o esporte moderno. O buquê entregue em Treviso é mais do que um aceno de cortesia: é um símbolo público, tecido sobre uma trama onde reputação, coragem e gestão do corpo se cruzam. Enquanto o mundo do esqui aguarda informações sobre a recuperação de Vonn, resta observar como este episódio será incorporado à memória coletiva do esporte — uma história que fala tanto de riscos quanto de reverência.
Atualizações sobre o estado clínico da atleta serão acompanhadas com atenção; até lá, o gesto do presidente do Veneto permanece como um capítulo de reconhecimento e empatia dentro de uma narrativa maior sobre profissionalismo, sorte e vulnerabilidade.




















