Sofia Goggia não teve o desfecho esperado na prova de combinada feminina nesta terça-feira, 10 de fevereiro, nos Jogos de Milano-Cortina. A campeã italiana, que já havia conquistado o bronze na descida, perdeu a aderência por volta da metade do percurso de downhill, justamente quando dividia pista com a jovem colega Lara Della Mea. A queda foi rápida: Goggia levantou-se na sequência e completou a descida sem lesões aparentes, mas o episódio deixou marcas sobretudo no plano emocional.
Em tom contido e reflexivo, a atleta de Bergamo admitiu não ter conseguido reproduzir o mesmo nível de concentração que exibira na descida anterior. “Certamente hoje não consegui entrar em prova com o mesmo foco de domingo passado”, disse Goggia, lembrando que, apesar de sentir-se bem no aquecimento, não conseguiu reacender a adrenalina competitiva. Ela reconheceu ainda carregar o peso mental da descida de dois dias antes, um elemento que, em Olímpicos, costuma alterar decisões e ritmos de desempenho.
Mais do que a preocupação com o resultado, a declaração que mais chamou atenção foi a preocupação com a colega: “Sinto muito por Lara Della Mea, eu a privei da oportunidade de testar o slalom. Desculpa, Lara”. O pedido de desculpas revela um aspecto muitas vezes esquecido pelo público mais distraído: a dinâmica de equipe e a centralidade das chances individuais num ambiente onde cada descida é também um ensaio para o coletivo.
Goggia já anunciou que respeitará um período de recuperação mental e física antes de voltar a competir: “Hoje vou descansar um pouco e trabalhar para recuperar o foco, sobretudo pensando no superG de quinta-feira, prova que correu bem durante a temporada. Vou me esforçar ao máximo”. A referência ao superG aponta para uma agenda de Olimpíadas em que a gestão do entusiasmo e da fadiga é tão decisiva quanto a técnica de corrida.
No resultado parcial da manche de downhill da combinada por equipes feminina, com a equipe Itália 1 eliminada, foi a norte-americana Breezy Johnson — já campeã olímpica da descida — quem registrou o melhor tempo, com 1’36″59. A austríaca Ariane Raedler ficou a apenas 0″06, enquanto a italiana Laura Pirovano ocupou a terceira posição a +0″27, passando o bastão para Martina Peterlini na segunda manga.
As demais duplas italianas seguiram com desempenhos variados: Nicol Delago completou em décimo, com +1″16 (em dupla com Anna Trocker), e Nadia Delago apareceu em 20º, a +2″83 (companheira de Giada D’Antonio). A prova de slalom foi programada para as 14h, um momento em que a pista e a cabeça das atletas exigem uma leitura precisa do risco e da oportunidade.
Para além da estatística do tempo, o episódio de Goggia é leitura sobre o peso simbólico da expectativa italiana em eventos que combinam tradição e renovação. Não se trata apenas de uma queda física: é um sinal das tensões internas que atravessam seleções, gerações e papéis diante de uma plateia que, nas Olimpíadas em solo doméstico, faz do esporte um espelho de identidade. Goggia, figura de consenso e crítica, sabe disso — e a sua resposta pública, austera e breve, dá pistas sobre a prioridade que fará daqui em diante: recuperar a autoridade mental que sustenta o gesto técnico na velocidade.






















