Por Otávio Marchesini — Especialista em Esportes da Espresso Italia
Na manhã seguinte ao pódio, Sofia Goggia transformou o alívio competitivo em uma declaração de afeto e memória. Em uma carta publicada nas redes sociais, a campeã revisitou a sua relação com Cortina — e com a história que a pista Olympia delle Tofane carrega — e dedicou a medalha de bronze na descida livre a Elena Fanchini, companheira de equipe que morreu em 8 de fevereiro de 2023.
Goggia, que há anos escolheu a encosta das Tofane como um “lugar do coração”, retomou imagens da antiga cadeira tripla que leva ao portão de largada, quando o sol nascente toca as Dolomitas. Foi ali, escreveu ela, que enfrentou uma prova marcada por variáveis técnicas e emocionais — situações que a atleta diz ter administrado com cabeça firme e o coração no limite.
O pódio em Cortina representa uma continuidade extraordinária em sua coleção olímpica: ouro em Pyeongchang 2018, prata em Pequim 2022 e agora o bronze na edição de 2026. Um ciclo que diz menos sobre números e mais sobre consistência e adaptabilidade em pistas que testam a técnica e o caráter. No texto, ela recorda uma estatística pessoal impressionante: desde 2017, nas provas que concluiu em Olympia delle Tofane, sempre subiu ao pódio, quatro vezes no degrau mais alto — um dado que revela uma relação singular entre atleta e lugar.
Mas a mensagem de Goggia teve também um tom de homenagem. A data de 8 de fevereiro ficou, para ela, marcada não apenas pela prova, mas pela lembrança de Elena Fanchini. “Acredito firmemente que, nesta medalha, houve também a carícia de uma nossa companheira que se foi”, escreveu. A referência devolve ao esporte sua dimensão comunitária: atletas como símbolos, mas também como parte de uma teia de afeto que atravessa equipes, regiões e gerações.
Houve, ainda, menções a duas rivais/companheiras que enfrentaram lesões graves na mesma prova: Lindsey Vonn e Cande Morenot. Goggia estendeu um abraço público a ambas, lembrando que a beleza do esporte convive com sua dureza física — e com a necessidade de reconhecimento humano diante do sofrimento.
Por fim, a carta faz um gesto pragmático: a “Olimpíada continua”, escreve Goggia, anunciando a sua participação na prova de Combinada no dia seguinte. A trajetória de Sofia Goggia em Cortina confirma algo que a história do esporte italiano já sabia observar: a persistência como forma de memória, e a memória como combustível para novas páginas competitivas.
Em um país onde as pistas não são apenas cenários, mas terrenos de identidade regional e orgulho coletivo, o gesto de dedicar uma medalha à lembrança de uma colega reverbera além do resultado — e transforma um bronze numa narrativa sobre vínculo, perda e resistência.
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