A presença de Snoop Dogg em Livigno não foi apenas um episódio de celebridade em torno das Olimpíadas Milano Cortina; foi um pequeno espelho das relações entre cultura pop, marketing esportivo e a cena alpina italiana. O rapper norte-americano, nomeado coach honorário do Team USA, desembarcou ontem na Valtellina após participar de parte do percurso da tocha em Gallarate, ter experimentado o curling e iniciado lições de esqui.
No início da tarde, Snoop acompanhou a final do snowboard halfpipe feminino — prova vencida pela sul-coreana Gaon Choi — e posteriormente assumiu o papel de atração em um evento privado promovido pela Burton. A marca aproveitou a efervescência dos Jogos para apresentar uma "limited edition" de pranchas inspiradas em Looney Tunes. Foi nesse encontro que se consumou a imagem que circulou nas redes: Snoop Dogg cumprimentando com um high-five o icônico Bugs Bunny, posando para fotos e recebendo abraços dos convidados.
Em um momento de proximidade com o público, o artista disse, em italiano, “Vocês são a minha força, como faccio a dirvi no?” — frase repetida com leveza antes de se despedir do evento. A sequência ilustra bem o papel das figuras midiáticas em eventos esportivos contemporâneos: funcionam como pontes entre produto, entretenimento e atenção global.
Como analista, procuro ler esses gestos para além do registro fotografado. A aparição de Snoop Dogg em Livigno reforça a ideia de que Jogos Olímpicos modernos são tanto plataformas de competições até o limite do desempenho quanto palcos de consumo simbólico. A associação entre uma marca de equipamento de neve como a Burton e um universo de tradições cartoon (os Looney Tunes) aponta para estratégias de aproximação com públicos jovens e transnacionais.
Há ainda um elemento local: realizar o ato em Livigno, uma estacão alpina com história de turismo invernal, combina memória communal e espetacularização externa. A capitalização cultural de um evento esportivo tende a reconfigurar a narrativa do lugar, produzindo imagens que ficarão na memória coletiva das edições de Milano Cortina.
Por fim, a cenas simples — um high-five, uma foto com Bugs Bunny, a prancheta special edition na neve — funcionam como sinais: o esporte profissional hoje vive numa rede onde identidades, marcas e espetáculos se nutrem mutuamente. Resta aos cronistas e aos gestores culturais observar como esses laços influenciam o legado dos Jogos e as políticas de desenvolvimento desportivo dos territórios anfitriões.
Otávio Marchesini — Espresso Italia




















