Milano Cortina, 17 de fevereiro de 2026 — Em um episódio que mistura celebridade, cotidiano e as pequenas redes de reciprocidade que sustentam grandes eventos, Snoop Dogg foi protagonista de uma cena discreta, mas reveladora, durante sua passagem pelos Jogos de Inverno.
O rapper americano de 54 anos, presente a Milano Cortina como consultor da Nbc e treinador honorário do Team Usa de curling, viu o próprio cartão ser recusado quando pediu um cheeseburger, alettes di pollo (as tradicionais aletas de frango), bocconcini e batatas fritas em um bar de Livigno.
O episódio, narrado pelos proprietários do estabelecimento, não teve constrangimento aberto: com o habitual sorriso, Snoop Dogg recebeu o alimento e seguiu acompanhando as provas. No dia seguinte, em gesto de agradecimento e correção simbólica do inconveniente financeiro, o artista enviou aos gestores do bar cinco bilhetes grátis para a final masculina do snowboard halfpipe, realizada no domingo anterior.
O presente emocionou os responsáveis pelo local, que depois compartilharam a história com surpresa e gratidão. A cena é pequena, à primeira vista, mas vale como sintoma das relações entre estrelas globais e as comunidades locais que, por vezes, sustentam a experiência dos grandes eventos: lanchonetes, hotéis e pequenas empresas que operam na periferia do espetáculo.
No Livigno Snow Park, a medalha de ouro do snowboard halfpipe ficou com o japonês Yuto Totsuka, graças a uma impressionante segunda descida avaliada em 95,00 pontos. Entre o público estava também o lendário snowboarder americano Shaun White, tricampeão olímpico na especialidade, figura que dá a dimensão histórica do que acontece no halfpipe.
O episódio do cartão rejeitado surge em pano de fundo a um papel público assumido por Snoop Dogg nos Jogos. Além de sua presença nas arenas, circulam informações — já difundidas durante os Jogos de Verão de Paris 2024 — sobre os generosos contratos entre personalidades e a emissora norte-americana: segundo rumores, o rapper teria recebido até 500 mil dólares por dia da Nbc, fruto de um acordo de transmissão que, desde 2014, consolidou cifras bilionárias entre a emissora e o Comitê Olímpico Internacional.
Mais do que anedota, o pequeno episódio em Livigno é janela para pensar a coabitação entre a grandiosidade dos Jogos e as vidas locais que os cruzam. A entrega de cinco bilhetes grátis não apaga a assimetria monetária entre celebridade e comerciante, mas traduz um gesto público que reequilibra momentaneamente essa relação: um reconhecimento em forma de convite para testemunhar o próprio espetáculo que a celebridade ajuda a amplificar.
Em meio a entrevistas e aparições — incluindo uma passagem pela Scala de Milão, onde teria declarado “I love it” — Snoop Dogg segue acompanhando provas e reforçando a presença cultural dos Estados Unidos nas plateias e nos storylines destas Olimpíadas. Pequenos episódios como o de Livigno tornam-se, assim, pedaços narrativos que ajudam a decantar o sentido social do evento: não apenas competições, mas encontros e trocas que revelam tanto o poder quanto a fragilidade das instituições e dos laços humanos no esporte contemporâneo.
Otávio Marchesini, Espresso Italia — especial para a cobertura de Milano Cortina






















