Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
Em coletiva após a cerimônia de abertura dos Jogos de Milano-Cortina 2026, o diretor-executivo do comitê organizador, Andrea Varnier, esclareceu um detalhe que passou despercebido por muitos: não estava previsto que Jannik Sinner participasse da cerimônia. A declaração, curta e direta, trouxe à tona uma face menos espetacular e mais estrutural do evento — a importância dos elos que une atletas, organização e voluntariado.
“Não era previsto que Jannik Sinner participasse da cerimônia de abertura”, afirmou Varnier. Em seguida, ele destacou um aspecto fundamental: Sinner foi, nas palavras do dirigente, “o nosso primeiro voluntário”. Segundo Varnier, o tenista acompanhou a preparação dos Jogos desde as fases iniciais e ofereceu sua disponibilidade para lançar o programa de voluntariado, que obteve, conforme ele mesmo definiu, “um sucesso incrível”.
Há duas leituras que valem ser sublinhadas. A primeira, prática, refere-se ao papel funcional que figuras públicas podem exercer em grandes projetos: além da aura, sua adesão pode ser um catalisador para mobilização social. A segunda, mais simbólica, remete ao modo como a Itália contemporânea constrói sua narrativa esportiva — não apenas em termos de resultados, mas na capacidade de transformar eventos em experiências coletivas.
Chamar Jannik Sinner de “primeiro voluntário” não é mera hipérbole de relações públicas. É um gesto comunicativo que associa um protagonista do esporte italiano a uma operação logística e cívica: o recrutamento e a formação de milhares de pessoas que, nos bastidores, tornam possível um evento dessa magnitude. O sucesso do programa de voluntariado, ressaltado por Varnier, confirma que essa estratégia foi bem-sucedida.
Como analista que observa o esporte através das lentes culturais e históricas, é útil lembrar que grandes cerimônias raramente emergem do vazio. Elas dependem de redes complexas — federações, administrações locais, patrocinadores e, crucialmente, voluntários. Quando um atleta de elite se envolve na fase preparatória, ele empresta legitimidade e visibilidade a um processo normalmente invisível ao grande público.
Varnier elogiou o contributo de Sinner “na primeira fase inicial”, uma expressão que remete à etapa de convencimento e mobilização, quando o projeto ainda estava se definindo e precisava de estímulos públicos para ganhar ritmo. O episódio, por menor que pareça, revela também uma escolha estratégica: usar a imagem de um atleta para estimular participação cidadã, algo com ressonâncias políticas e culturais em um país em que o esporte frequentemente cumpre função integradora.
Não se trata de romantizar a presença das celebridades, mas de compreender o que representações públicas fazem pelo processo organizativo. A declaração de Varnier deixa claro que a presença de Sinner na cerimônia foi um elemento adicional — e não planejado — que acabou por amplificar uma narrativa de coesão em torno de Milano-Cortina 2026.
Restará à história dos Jogos avaliar o peso desse gesto simbólico. Para já, fica a lição concreta: em eventos tão complexos, pequenas decisões e adesões informais podem ter efeitos práticos e simbólicos duradouros. E, como sempre, o trabalho silencioso dos voluntários segue sendo o pilar invisível que sustenta o espetáculo.
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