Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Nos últimos dias a imprensa italiana repercutiu declarações do patinador de velocidade em pista curta Pietro Sighel que geraram debate sobre a convivência e a dinâmica interna da seleção de short track rumo a Milano Cortina 2026. Em resposta, Sighel procurou delimitar o sentido de suas palavras: não se tratou de um ataque pessoal a Arianna Fontana, mas de uma reflexão sobre o percurso técnico coletivo da equipe nos últimos anos.
Segundo o atleta, quando afirmou que o grupo cresceu “sem Arianna”, referia-se ao fato de que a campeã tem se treinado por longos períodos no exterior — morando nos Estados Unidos com o marido e treinador Anthony Lobello — e, por isso, passou menos tempo junto ao restante da seleção. Nesse contexto, a equipe italiana, segundo Sighel, conseguiu forjar identidade e solidez competitiva, itens essenciais num esporte de tanta volatilidade como o short track.
Sighel deixou claro que reconhece a contribuição histórica de Arianna Fontana para o esporte nacional: “É uma campeã, fez a história do nosso esporte, suas medalhas deram visibilidade e credibilidade ao movimento. Quando alguém atinge esses feitos, aplaude-se”. E acrescentou que jamais teve a intenção de desrespeitá-la, embora a versão das suas falas difundida pela imprensa pudesse sugerir o contrário.
As palavras do jovem atleta remontam a uma frase mais contundente divulgada no calor do ouro conquistado pela equipe: “Arianna Fontana, ma chi la conosce? Di sicuro con lei non siamo una squadra, a parte i due minuti e mezzo in pista”. A contundência levou a ecoar tensões antigas, em especial porque há histórico de atritos: quatro anos atrás, Arianna Fontana acusou dois colegas de terem tentando fazê-la cair durante um treino — eles foram posteriormente absolvidos pelo tribunal da FISG.
A própria Fontana preferiu desdramatizar: “Não dou atenção a polêmicas, não merecem minha atenção. Se eu não quisesse fazer parte da equipe, não teria permanecido em Bormio para treinar com eles antes das provas de estafeta”. A resposta, medida, reafirma o papel de uma atleta veterana que equilibra compromisso com a seleção e decisões profissionais individuais.
Como jornalista e analista, é preciso destacar dois vetores que a controvérsia expõe: primeiro, a tensão estrutural entre carreiras globais de atletas de elite e a coesão de seleções nacionais; segundo, o papel da imprensa na compressão de frases complexas em manchetes que polarizam. Nos esportes coletivos individuais, dizer «crescemos sem X» pode ser lido como mérito coletivo ou como insensibilidade frente a quem construiu o palco.
Se há aprendizado, ele reside em reconhecer a pluralidade de trajetórias num país onde figuras como Arianna Fontana moldaram público e investimento, enquanto gerações novas — representadas por atletas como Pietro Sighel — procuram consolidar identidade própria sem apagar legados.
Assino estas linhas com a convicção de que o debate deve servir para fortalecer práticas de treino, comunicação e convivência dentro do grupo, em benefício do esporte italiano nas pistas de Milano Cortina 2026.
Otávio Marchesini — repórter de Esportes, Espresso Italia





















