Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Há espetáculos esportivos que brilham sob as luzes das transmissões e há profissionais cuja presença é determinante, porém invisível ao grande público. São os shapers, os artesãos da neve, responsáveis por transformar encostas em palcos seguros e competitivos. Em Livigno, durante as provas de Milano Cortina 2026, a rotina desses técnicos expõe a dimensão humana e técnica de um trabalho que liga tradição alpina, saber fazer e exigência televisiva.
Rotina e responsabilidades
Na prática, a equipe que prepara a pista de ski cross começa cedo — por vezes às cinco da manhã — e trabalha até a noite. Luca Biagiotti, 46 anos, e Andrea Coatti, 42, são dois nomes dessa frente. Luca, com carreira em Chiesa e experiência em etapas de Copa do Mundo, destaca que no ponto de partida há cerca de quinze shapers, mas que, ao longo de um traçado, mais de 80 pessoas — entre shapers, gattisti e voluntários — se revezam para garantir a forma final da pista.
Andrea, que vive no exterior e já esteve nas Olimpíadas de Pequim, ressalta a natureza profissional e itinerante da atividade: muitos shapers viajam e levam consigo técnicas e rotinas que se tornaram repertório coletivo para competições de alto nível.
Técnica sob variabilidade climática
O trabalho não é apenas físico; é sobretudo técnico e reativo. Cada salto, cada partida e cada transição nasce de testes e medições contínuas. A temperatura e a qualidade da neve impõem adaptações: neve fresca precisa ser removida, o fundo deve ficar duro e consistente. Para tanto, a equipe usa pás, fresas, rastelos, vassouras industriais e sopradores; quando a quantidade é substancial, entram escavadoras. Nas operações mais delicadas, os profissionais mais experientes cuidam dos saltos e da partida, enquanto os menos experientes trabalham nas seções finais.
Quando a neve complica
Os episódios recentes de Livigno ilustram a dureza da tarefa. Uma queda de 25 centímetros de neve obrigou a um esforço concentrado: cinco horas de trabalho contínuo e 50 pessoas mobilizadas para devolver a pista a condições de competição. Em seguida vieram os gattisti, que alisaram e consolidaram o traçado em horas adicionais.
Além da técnica: um compromisso com a segurança
O sentido de responsabilidade acompanha cada intervenção. Os shapers sabem que, ainda que a pista esteja perfeita, o ski cross é uma modalidade em que contatos e quedas são frequentes. Lesões de atletas geram frustração e não satisfação; o objetivo é reduzir riscos por meio de superfícies previsíveis e de estruturas bem trabalhadas. A cooperação com operadores de máquinas, treinadores e organizadores é constante: ajustes são feitos em função das observações de treinos e de provas anteriores.
Memória e valor social
O que se vê em televisoras é o gesto do competidor; o que permanece é a soma de saberes que possibilita esse gesto. Os shapers são herdeiros de práticas alpinas e contemporâneas, um elo entre o passado da montanha e a modernidade do espetáculo esportivo. São, em certa medida, guardiões do jogo seguro e da imagem que as Olimpíadas projetam do território italiano — uma imagem onde técnica, comunidade e paisagem se encontram.
Para quem trabalha com neve, a recompensa é dupla: ver a pista cumprir seu papel na competição e reconhecer, no fim do dia, que o esforço coletivo tornou possível aquilo que os olhos do mundo acompanharam por poucos minutos.





















