Milano-Cortina 2026 abre as portas em 6 de março e, entre os olhares voltados para a cerimônia de abertura, surge uma patrulha do Alto Adige pronta para traduzir tradição alpina em desempenho inclusivo. São sete os representantes da província que integram a delegação italiana: um contingente pequeno em número, porém pesado em simbolismo e em qualidade técnica.
Do alto das Dolomitas direto para o gelo e a neve, os nomes locais aparecem com destaque sobretudo na seleção de para ice hockey, esporte em que a Itália convocou 17 atletas e dos quais seis são oriundos do Alto Adige. No lote estão o goleiro Julian Kasslatter, o defensor Alex Enderlee e os atacantes Christoph Depaoli, Stephan Kafmann, Nils Larche e Matteo Remotti Marnini, todos vinculados ao Gruppo Sportivo Disabili Alto Adige. É uma presença que traduz um ecossistema local capaz de formar atletas para o cenário internacional.
Entre esses nomes, Christoph Depaoli emerge como referência: veterano, capitão moral de um grupo que converteu frustrações em disciplina. Para Depaoli, jogar uma Paralimpíada em solo italiano é mais do que uma meta esportiva — é o ponto de chegada de um percurso pessoal. “Jogar uma Olimpíada na Itália é o sonho de uma vida que se realiza”, afirma. Ouvir a torcida, sentir a própria comunidade — elementos que, segundo ele, serão “a nossa marcha a mais”.
A ambição, contudo, não é apenas simbólica. A seleção quer superar o quarto lugar obtido em Pequim há quatro anos e, se possível, lutar por uma medalha. As palavras de Depaoli deixam claro o tom: o gelo não perdoa, mas cada queda ensinou a levantar-se mais rápido; cada disputa vencida pode ser convertida em esperança para quem acompanha em casa. É, na sua leitura, uma metáfora compartilhada entre esporte e vida: limites existem para serem ultrapassados.
Fora do gelo, o Alto Adige também marca presença nas pranchas. O gardenense Emanuel Perathoner é a figura de destaque no snowboard paralímpico. Com histórico olímpico em Jogos convencionais (Sochi 2014 e PyeongChang 2018), Perathoner viveu uma trajetória de recuperação notável: um grave acidente em janeiro de 2021 durante preparativos para Pequim 2022, seguido por quatro cirurgias, a implantação de uma prótese total no joelho e um ano de reabilitação. Retorna agora às pistas com a mesma vontade de quem conhece o preço da superação.
Esses “fantásticos sete” fizeram das montanhas do Alto Adige o seu laboratório técnico e humano. Levarão para Milano-Cortina 2026 mais do que habilidade atlética: portarão a história de regiões que transformaram a prática esportiva em projeto social e identidade coletiva. Em um evento onde a visibilidade e o simbolismo são tão importantes quanto o pódio, a participação sul-tirolesa funciona como um indicador de como o esporte inclusivo se organiza e se afirma na Itália contemporânea.
Para observadores atentos, a luta desses atletas revela questões maiores: como federações regionais, clubes e políticas públicas se articulam para manter trajetórias esportivas? Que memória coletiva se constrói quando um atleta local disputa uma Paralimpíada em casa? Respostas não virão apenas dos resultados em pista, mas na capacidade dessas histórias de inspirar mudanças estruturais no desporto adaptado.
O cronograma competitivo começa em 6 de março e se estende até 15 de março. Até lá, os sul-tiroleses não buscam apenas medalhas; procuram afirmar que o Alto Adige é, hoje, fonte e símbolo de excelência inclusiva.






















