Por Otávio Marchesini — A vitória numérica da Noruega em Milão-Cortina não é obra do acaso nem só do clima ou de um prodígio isolado. Com seus cerca de 5,6 milhões de habitantes, o país escandinavo terminou os Jogos com 41 medalhas, entre as quais 18 ouros, deixando para trás potências tradicionais como os Estados Unidos, que somaram 32 pódios (11 ouros).
É verdade que o território e a cultura — montanhas, neve e esporte ao ar livre — oferecem um terreno fértil. Também pesam talentos extraordinários: na neve, nomes como Johannes Klæbo fazem a diferença; em pistas e campos, atletas como o meio-fundista Jakob Ingebrigtsen demonstram que a Noruega extrapolou o estereótipo de nação apenas de esportes frios. Mas a explicação mais interessante é institucional e tem origem política e cultural.
A história começa no final dos anos 1980. Depois do fracasso nas Olimpíadas de Inverno de Calgary — onde a Noruega conquistou apenas três pratas e dois bronzes — o movimento esportivo nacional fez escolhas conscientes. O Comitê Olímpico norueguês lançou a chamada Carta dos Direitos das Crianças no Esporte, um documento curto, objetivo, que redefiniu o que deveria ser a experiência esportiva infantil: ambientes seguros, ênfase na amizade e na aprendizagem, e sobretudo a proibição de classificações e rankings em competições para crianças até os 13 anos.
A regra é clara: nas faixas etárias mais jovens, não se publicam tabelas de classificação nacionais; se houver distribuição de prêmios, estes destinam-se a todos os participantes, inclusive aos que terminam por último. O princípio orientador é simples e radical: banir o agonismo precoce para que o jogo permaneça divertido.
Do ponto de vista social, essa opção amplia a participação e reduz a ansiedade por performance. Psicologicamente, cria-se um efeito prático: quando os jovens chegam à adolescência e passam a competir em ambientes onde o resultado conta de verdade, eles não estão esmagados por medo do fracasso ou por um histórico de abandono precoce. Em outras palavras, preserva-se a base — e, ao mesmo tempo, alimenta-se o topo.
Quem é apontado como o artífice dessa virada é Inge Andersen, homem com longa trajetória nos esqui nórdico, educação física e depois dirigente, que ajudou a transformar intenções em políticas estáveis. O investimento, nas palavras de responsáveis noruegueses, foi sobretudo cultural: reconstruir a infância esportiva como direito, não como treino para medalha imediata.
O resultado é mensurável: em poucas décadas a Noruega passou a colher medalhas não apenas nas modalidades tipicamente invernais, mas também em esportes de caráter mais universal, como atletismo e futebol. Para observadores como eu, que leem o esporte como espelho social, a lição é clara: políticas públicas coerentes e uma visão de longo prazo sobre formação e bem-estar podem compensar de forma decisiva a diferença de população e recursos. A Noruega não venceu apenas competições — consolidou uma abordagem civilizatória do esporte.






















