Sara Conti, 25 anos, nasceu em Alzano Lombardo e hoje é um dos nomes mais emblemáticos da patinação artística italiana. A trajetória que a trouxe ao pódio — incluindo uma medalha de bronze no team event em sua primeira Olimpíada — passa por decisões técnicas, uma parceria esportiva decisiva, um término pessoal que ameaçou a performance e uma lesão que poderia ter encerrado a temporada. Como repórter e analista, vejo em sua história não só um percurso atlético, mas um retrato das estruturas e tensões que moldam o esporte contemporâneo na Itália: clubes de Estado, centros de treinamento regionais e a tensão entre vida privada e espetáculo público.
Primeiros passos: o amor que começou aos quatro anos
Conti calçou suas primeiras lâminas aos quatro anos, depois de um aniversário em uma pista de gelo próxima à casa. “Foi amor à primeira vista”, costuma lembrar. Essa paixão inicial foi alimentada por uma base local: treinos no IceLab de Bergamo, orientação técnica e uma trajetória progressiva nas categorias de base. A atleta integra o grupo esportivo das Fiamme Oro, estrutura que, para além do apoio logístico, oferece um enquadramento institucional típico do esporte italiano — onde a relação entre clube, polícia esportiva e federações se entrelaça com o financiamento e a gestão da carreira.
Da modalidade individual ao par: a virada decisiva
Até 2019, Sara Conti competia na prova de singolo, com um pico de desempenho que incluiu o quinto lugar nos campeonatos italianos de 2017/2018. Insatisfeita e à beira de abandonar o agonismo, a patinadora aceitou experimentar a patinação em par — parceria que, naquele momento, já existia fora do gelo com o milanês Niccolò Macii. A transição foi um ponto de inflexão. Em poucos anos, a dupla se estabeleceu como referência nacional e começou a obter resultados relevantes no circuito internacional.
Temporada histórica: Europeus e Mundiais 2022/2023
A temporada 2022/2023 foi descrita por muitos como o “ano mágico” da dupla. Em Espoo (Finlândia), a parceria conquistou o ouro nos Campeonatos Europeus, uma conquista inédita para a patinagem artística italiana naquela disciplina. Poucos meses depois, em Saitama (Japão), veio o bronze no Mundial — outra primeira vez para a Itália. Esses resultados não são meras estatísticas: representam a maturação técnica de uma escola que havia investido em metodologias e revoluções táticas, além de sublinhar a importância da conexão entre treinadores e centros regionais como o IceLab.
Lesão e recuperação: o teste de resistência
O caminho para a Olimpíada, porém, não foi linear. Em 28 de dezembro, durante um treinamento, Sara Conti aterrissou mal após um salto e sofreu uma distensão do ligamento colateral do joelho direito. “Eu nunca tinha vivido uma lesão antes; um mês atrás estava de muletas”, contou em entrevista na véspera dos Jogos. O episódio expõe duas realidades do esporte de alto rendimento: a intensidade das exigências técnicas e a centralidade do trabalho coletivo — fisioterapeutas, preparadores físicos e a própria equipe — para permitir que um atleta volte à competição em condições aceitáveis.
Vida pessoal e dinâmica em pista: quando o privado interfere no público
Outro elemento que atravessou a temporada foi o término do relacionamento amoroso entre Conti e Macii. A dupla, que já dividia a vida além do gelo, optou por não permanecer junta fora da pista. A consequência imediata se refletiu nas performances seguintes: “Depois do fim do amor, nós mantivemos firmeza” (“Dopo la fine dell’amore abbiamo tenuto duro”), disse Sara, sintetizando a tensão entre laços afetivos e obrigações profissionais. Esse trecho da história é exemplar para entender como a patinação artística, mais que outras modalidades, exige sintonia fina entre corpos e emoções. Quando a confiança interpessoal é abalada, a sincronia técnica tende a sofrer.
O papel do treinador e do centro de formação
Na trajetória de Conti, o trabalho de Barbara Luoni, treinadora do IceLab, é um eixo central. A instituição de Bergamo surge não apenas como local físico de treinamentos, mas como espaço de transmissão de técnicas, de gestão de rotinas e de construção de uma identidade esportiva. A colaboração entre treinador, equipe médica e o ambiente institucional — aqui representado pelas Fiamme Oro — é o que permite transformar talentos locais em atletas capazes de disputar pódios continentais e mundiais.
Significado histórico e cultural das conquistas
As medalhas de Espoo e Saitama têm um efeito simbólico sobre o panorama esportivo italiano. Elas rompem uma barreira psicológica: a ideia de que certas disciplinas históricas de potência — como a patinação artística em par — eram inacessíveis para a Itália. O resultado é um estímulo para jovens patinadores, investimento institucional e, sobretudo, um reposicionamento do país no mapa da modalidade. Para cidades como Bergamo e Alzano Lombardo, a ascensão de Conti e Macii traduz-se também em visibilidade e memória esportiva local.
Olimpíada em casa: expectativa e responsabilidade
Competir em casa agrega uma pressão singular. A presença da Ice Skating Arena de Milão como palco dos Jogos acrescenta um componente emocional que vai além da técnica: é a arena onde se encontram representação regional, expectativa nacional e a vitrine internacional. Para Sara Conti, participar da primeira Olimpíada e subir ao pódio no evento de equipes não é apenas um triunfo pessoal, é a validação de um projeto coletivo — de treinadores, do clube, da federação e das redes locais de suporte.
O que vem a seguir: desenho de futuro e legado
Mais do que resultados imediatos, a trajetória de Conti abre perguntas sobre o futuro da patinação em par na Itália. Como os centros de formação vão capitalizar o sucesso? Que programas de base serão ampliados? Qual o papel das forças institucionais, como as Fiamme Oro, na sustentação de carreiras longas e técnicas? As respostas a estas perguntas determinarão se as conquistas de 2022/2023 e o pódio olímpico serão episódios isolados ou o fundamento de uma tradição duradoura.
Aspectos técnicos a observar
- Sincronia e transições: a força da dupla está na harmonia entre elementos técnicos e partes coreográficas;
- Consistência sob pressão: o desafio de manter o desempenho após eventos pessoais turbulentos;
- Recuperação física: gestão de cargas e readaptação pós-lesão são diferenciais para a continuidade da carreira.
Conclusão
A história de Sara Conti é uma narrativa sobre perseverança em múltiplos níveis: pessoal, técnico e institucional. Que uma atleta de uma cidade do interior da Lombardia alcance êxito em competições europeias, mundiais e olímpicas nos aproxima da compreensão do esporte como fenômeno social. Não é só sobre uma medalha; é sobre redes de suporte, decisões de carreira e a capacidade de transformar fragilidades em alavancas de resiliência. Se a patinação artística italiana ganhou um novo símbolo, esse símbolo é tanto a lâmina quanto a pessoa que a maneja — com técnica, estratégia e uma história humana por trás de cada salto.
Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia





















