Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
A atmosfera em Assago parecia pertencer a outra escala de intensidade: não era apenas uma competição, era um momento de narrativa coletiva. Ao colocar a medalha de bronze ao redor do pescoço, Matteo Rizzo resumiu aquilo que todos sentiam com uma frase simples e densa: tomar uma medalha nas Olimpíadas já é muito; fazê-lo em casa é indescritível. O pódio no Team Event das Milano-Cortina 2026 representa, para além do resultado técnico, o triunfo de um projeto que pensou a patinação como processo social e organizacional.
Aquela medalha não nasceu do acaso: nasceu de um plano coletivo e de repetidos ajustes. Como explicou Rizzo, a conquista é fruto da escolha do time certo e de uma repartição clara de papéis. “Cada pessoa tem o seu dever, a sua palavra. É importante que todos possam falar sem medo de errar”, disse ele, lembrando que por trás de sua figura existe uma estrutura ampla — “tenho dez pessoas que trabalham para mim todos os dias” — e uma programação construída também a partir dos erros, admitidos e corrigidos.
No gelo, o patinador de Sesto San Giovanni descreveu uma vivência quase metafísica: o público tornou-se tão presente que a música desapareceu, restou apenas o corpo executando a tarefa. Rizzo contou que não assistiu à prova do georgiano, conheceu apenas o resultado e tomou a decisão técnica que julgou necessária: não limitar a performance, ir ao full attack porque se sentia bem. Essa atitude — entre cálculo e intuição — é o que transformou tensão em execução eficaz.
Ao lado dele, Lara Naki Gutmann assinou uma contribuição fundamental com um curto impecável e um livre de grande caráter. A trentina reconheceu que a segunda parte do programa, marcada por dificuldades nos saltos, poderia comprometer o resultado — mas o apoio da plateia e a presença do pai nas arquibancadas foram determinantes. “Após a minha prova não estava nada certo, então demos tudo para apoiar o Matteo. Nós choramos, gritamos e pulamos”, relatou com a franqueza de quem sabe que o coletivo se constrói em ondas emocionais.
Importante também na retaguarda emocional teve sido a figura de Carolina Kostner. Gutmann descreveu a campeã como conselheira e presença afetiva — até pelo simbolismo de estar ao lado da equipe no dia do próprio aniversário. Essas relações interpessoais, discretas mas persistentes, ajudam a entender por que a patinação artística italiana vem transformando potencial em resultado.
O alto-atesino Daniel Grassl deu igualmente seu contributo na curta, deixando a equipe em posição competitiva e vivendo depois a aflição de acompanhar os colegas — uma tensão típica em formatos por equipes, onde cada entrega carrega peso de eliminação e esperança. Foi, no fim, um trabalho coletivo que converteu pressão em medalha.
No conjunto, o bronze em Assago é mais do que uma peça para a galeria nacional: é o reflexo de uma cultura esportiva que aprendeu a gerir talento com método, a aceitar erro como instrumento de melhoria e a transformar estádio em comunidade. Em um dia em que a Itália somou seis medalhas, o pódio do Team Event teve sabor de síntese: ali estavam juventude, experiência, planejamento e público — elementos que contam, em última instância, a história de um país que encara o esporte como memória e projeção.





















