Entre a rotina técnica de uma prova e a cerimônia íntima das famílias que seguem um atleta, surgiu um momento que disse mais sobre identidade e pertencimento do que qualquer ranking: durante o gigante de Milano-Cortina, a family cam captou a tia Cristina com o cão Flash no colo, perguntando ao atleta em direto, como faria uma mãe, «Rici, você comeu?».
Richardson Viano, conhecido como Rici, tem 23 anos e é o primeiro atleta haitiano a disputar os Jogos de Inverno. Adotado por uma família de Turim, sua trajetória — de uma ilha onde a neve era apenas um sonho até a pista olímpica — resume um percurso de migração, mediação familiar e inserção cultural que ultrapassa a dimensão esportiva.
O episódio, aparentemente trivial, desconstrói a imagem de espetáculo distante que muitas vezes envolve os grandes eventos: revela o entrelaçamento entre uma origem marcada por rupturas — o terremoto que separou e depois reuniu crianças e familiares — e a domesticidade que acompanha um atleta em pista. Rici ficou visivelmente surpreso com a pergunta da tia, e esse gesto transmitiu aos telespectadores mais do que afeto: mostrou a normalidade que sustenta a exceção de um rapaz que veio de um país tropical e hoje defende um nome na neve.
Na finish area de Bormio, a mãe adotiva Silvia acompanhava Rici junto à pequena delegação da federação haitiana. O atleta terminou a prova do gigante em 44º lugar. «Não estava muito satisfeito», disse Silvia depois da descida. «Não cometeu erros grandes, mas não conseguiu empurrar como queria. Talvez tenha errado na encera (sciolina). Em treino, estava melhor. Na segunda-feira terá o slalom para tentar se redimir: ele vai melhor nas portas mais estreitas, embora sua disciplina de referência seja o gigante.»
Entre os conhecidos que competem nas pistas está também Denni Xhepa — nascido em Pinerolo, em prova pela Albânia —, que terminou em 34º. «São dois rapazes por bem, verdadeiros desportistas; os atletas nunca estão satisfeitos», comentou Silvia, numa síntese que vale para boa parte dos corredores.
A história de Richardson Viano remete às trocas transnacionais: nascido no Haiti, chegou à família quando tinha três anos e meio, reunido com as irmãs Bellandine e Natacha, que viviam no mesmo orfanato. Parte dessa vida foi recolhida no livro «Ad Haiti sognavo la neve», que reúne anedotas que ajudam a traduzir o percurso humano por trás da imagem atlética.
Os Viano, de origem turinesa, moram há décadas em Briançon: Andrea, marido de Silvia, é guia alpino no Maciço dos Écrins há mais de trinta anos. Além disso, a presença de outras famílias transfronteiriças, como os Tranchina da Val Susa — representados por Pietro nas pistas, em competição pela seleção do Marrocos — evidencia como a geografia alpina e as redes familiares se entrelaçam com a política das bandeiras e identidades.
Em um continente onde o esporte frequentemente se transforma em palco de emoções coletivas e disputas simbólicas, a imagem de Rici a quem se pergunta se comeu revela a face cotidiana do atleta: uma vida feita de convivência, refeições partilhadas e expectativas familiares. Num instante de televisão global, a fragilidade e a ternura de uma cena doméstica mostraram que, por trás de qualquer bandeira, subsiste uma história humana que dá sentido à competição.






















