Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
As primeiras jornadas de Milano Cortina 2026 revelaram um espetáculo que vai além do desempenho atlético: a presença visível da realeza europeia, vestida com as cores nacionais e comprometida com um papel de torcida ativa e de diplomacia simbólica. A imagem dos monarcas nas arquibancadas, muitas vezes com roupas informais e lenços nas cores das delegações, funciona como um prolongamento da cerimônia — um gesto de apoio que mistura representação institucional e afeto público.
Entre os episódios que marcaram o dia, a vitória de Francesca Lollobrigida na prova de 3.000 metros do patinagem de velocidade teve uma reverberação engraçada e humana: nos assentos, o rei Harald V da Noruega e a rainha Sonja acompanharam com atenção, para depois deixar transparecer a frustração diante do triunfo italiano. A reação dos monarcas escandinavos é um lembrete de que, mesmo em tempos de profissionalização extrema, a competição mantém um caráter tribal — onde pertencer a uma nação é também partilhar expectativas e frustrações.
Também em destaque esteve a família real dos Países Baixos. Trajando o clássico laranja da Casa de Orange, a rainha Máxima, o rei Guglielmo Alessandro e a herdeira Catharina Amalia percorreram o vilarejo olímpico e encontraram jovens atletas, num gesto que combina visibilidade com estímulo moral. A expressão de leve desapontamento da rainha Máxima após a prova confirmou que a emoção nas arquibancadas era genuína, não meramente protocolar.
O caráter transnacional do evento ficou notório também nas presenças do Reino Unido: Sir Timothy Laurence, marido da princesa Anne, foi visto aplaudindo no curling, enquanto a própria Princess Royal seguia para compromissos esportivos paralelos, como a cobertura do Six Nations de rugby. Pequenos encontros informais — como saudações trocadas com figuras italianas, entre elas o príncipe Emanuel Filiberto de Savoia — reforçam o papel dos Jogos como um ponto de convergência social.
No plano das premiações, o príncipe Alberto de Mônaco, em Bormio e actuando também em sua qualidade de membro do Comitê Olímpico Internacional, participou da cerimônia de entrega das medalhas no esqui alpino e snowboard. Entre os premiados, destaque para o italiano Giovanni Franzoni, que conquistou a prata, e para o compatriota Dominik Paris, que ficou com o bronze na descida pela Stelvio; o ouro foi para von Allmen. Essas cenas — princípe entregando medalhas e atletas emocionados — sintetizam a dimensão cerimonial que o esporte moderno ainda preserva.
Do norte da Europa, está prevista a chegada do rei Carlo XVI Gustavo da Suécia, acompanhado da rainha Silvia, para os eventos de abertura. É relevante recordar que alguns monarcas tiveram ausências na edição de 2022, por motivos sanitários; sua volta agora reafirma a centralidade simbólica dos Jogos de Inverno para várias coroas nacionais.
Mais do que celebração de resultados imediatos, a presença real em Milano Cortina 2026 funciona como um espelho das relações entre tradição e modernidade. Monarcas que descem do pedestal para um abraço no vilarejo, que trocam palavras com jovens atletas e que demonstram frustrações públicas diante de derrotas esporádicas contribuem para humanizar instituições antigas. Em termos culturais, a cena reforça a função dos Jogos como palco da memória coletiva: momentos que, para além das medalhas, entram na narrativa nacional como imagens de afeto, de representação e de pertença.
Enquanto as provas prosseguem, as arquibancadas seguirão traduzindo, com naturalidade e simbolismo, a tensão entre o espetáculo esportivo e suas implicações sociais. Os reis e rainhas estão lá não só para ver o resultado, mas para participar — e, nesse gesto, a própria comunidade olímpica encontra uma camada adicional de significado.





















