Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — Em Milano-Cortina 2026 há um esquiador que não veste a camisa da Itália, mas que inevitavelmente recebe olhares e apoio dos azzurri. Rafael Mini, 17 anos, é o único representante de San Marino qualificado para os Jogos. Antes de sua estreia no gigante em Bormio, o jovem conversou com a imprensa e mostrou a calma e a clareza de quem encara a experiência como um rito de passagem.
“Emoções? Estou calmo, sei que estou num momento de boa forma”, disse Rafael Mini ao Adnkronos, revelando a tranquilidade com que encara a prova marcada para sábado, 14 de fevereiro. A sua abordagem é simples: “Vim para fazer o que sei, estou pronto. Treinei muito nos últimos dias, inclusive em condições semelhantes às da prova. Não penso no pódio, quero aproveitar e divertirmo-me”.
A trajetória de Mini até o sopé da Stelvio é, em si, um pequeno retrato das assimetrias e da criatividade no esporte dos microestados. Nascido e formado à sombra do Monte Titano, aprendeu a esquiar numa pista artificial, com neve e gelo simulados. Para acumular pontos e experiência, até treinou em instalações improváveis — chegou a esquiar num centro comercial em Dubai para somar pontos úteis para a Copa do Mundo.
Na cerimônia de abertura, ele foi o portador da bandeira e, assim, entrou simbolicamente como o 197º atleta entre os que desfilaram sob o tricolore italiano — um gesto que mistura orgulho pessoal e visibilidade diplomática para um dos menores Estados da Europa. “Minha família me disse para me divertir e sorrir. Nesta terça, minha irmã Camila, de 12 anos, vem assistir; ela está mais emocionada do que eu”, conta. Os Chefes de Estado de San Marino também o cumprimentaram, pedindo que levasse a bandeira para cima.
A convivência com os competidores italianos tem sido discreta e respeitosa. Mini não divide pista de treino com os especialistas das disciplinas rápidas, como Dominik Paris, mas encontrou-se com alguns deles durante os dias de prova. Recorda ter pedido uma foto com a medalha de um dos heróis locais e fala com reverência sobre nomes como Giovanni Franzoni — “um mito, um grande realmente”, disse, após a dobradinha italiana na descida que animou as primeiras jornadas do evento.
Entre os contrapesos da aventura olímpica, há um lamento: a ausência do Villaggio Olimpico. Para um jovem atleta, a vivência comunitária é um espaço formativo onde se trocam histórias, culturas e reputações, e Mini confessa que sentir falta dessa dimensão lhe tira parte do sabor completo da experiência.
Antes de escolher o esporte como profissão, ele tocava violino na infância — uma atividade que descreve como apaixonante, porém incompatível com a exigência do alto rendimento esportivo. A decisão por se dedicar ao esqui o trouxe até as pistas de Bormio e, por ora, a satisfação de ter alcançado as Olimpíadas.
Com a sobriedade de quem observa mais do que proclama, Mini arrisca até prognósticos: “No gigante, acredito que vença o Odermatt; no slalom, vejo o McGrath como favorito”. Prognósticos à parte, sua presença ilustra algo que transcende resultados: a capacidade de um jovem atleta de um microestado transformar a participação em palco de afirmação identitária e aprendizado pessoal.
Depois de Bormio, volta a escola. Mas, antes, viverá uma experiência que o jovem — e o próprio país que representa — guardará como parte de uma memória coletiva.





















