Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes da Espresso Italia
A movimentação contida nas estradas e nos centros comerciais ao redor de Cortina durante os Jogos de Milano‑Cortina não é um episódio isolado: é o efeito de escolhas logísticas e de comunicação que começam a ter reflexos reais sobre o quotidiano e a economia local. Fora da Conca Ampezzo, a montanha parece ter esvaziado — e essa percepção alimenta uma narrativa perigosa: a de uma cidade cara e inacessível.
O número reduzido de espectadores nas provas não nasceu do acaso, mas de uma arquitetura de evento pensada para ser sustentável: a viabilidade do Cadore foi redesenhada para evitar congestionamentos e preservar fluxos, com limites ao tráfego e rotas organizadas que não comportam um trânsito desenfreado. Soma‑se a isso a configuração das tribunas — menor do que a vista em provas regulares — motivada por custos elevados na obra do Sliding Centre e por infraestruturas incompletas, como a cabinovia de Socrepes, cuja conclusão só está prevista para o final dos Jogos. Isso impede que, mesmo com demanda, as Tofane sejam preenchidas em sua capacidade máxima.
Na manhã de terça, a campeã Sofia Goggia resumiu em poucas palavras o sentimento de quem vive o esqui em alto nível: «Na Coppa del Mondo há muito mais pathos, há mais gente e mais torcida italiana». Para ela, as restrições olímpicas tornam a logística menos simples e mesmo o preço dos ingressos — mais alto — funciona como um desincentivo ao comparecimento. Se na terça‑feira foram os americanos os mais ruidosos nas laterais da pista, Goggia depositou esperanças no Super‑G de quarta: «Com certeza haverá mais italianos».
Para o comércio local, porém, a questão é menos subjetiva: é palpável nas lojas vazias e nos teléfonos que não tocam. Dirigentes da Confcommercio, como o presidente veneto Patrizio Bertin e o bellunense Paolo Doglioni, alertam para a necessidade de reverter o impacto reputacional. Eles destacam que as localidades turísticas «são todas alcançáveis sem limitações» e que a máquina organizativa está, de modo geral, preparada e funcional. O problema, dizem, é a percepção: a ZTL de Cortina tem sido mal interpretada e transmite a ideia errada de bloqueio total.
«O tráfego é limitado para regular a circulação em entrada. Cortina é acessível para autorizados, por meio de shuttles e de parques de intercâmbio, mas o restante está aberto: estradas e passes continuam percorríveis», afirmam os dirigentes. Ainda assim, o recuo de visitantes já se manifesta em áreas do entorno — Agordino, Comelico e Zoldano — e reforça a urgência de uma comunicação clara e de ações imediatas para recuperar a confiança do turista.
Como analista, relembro que o esporte em regiões alpinas sempre foi um fenômeno que liga identidade local e economia: estádios e pistas não são apenas palcos de competição, mas espaços que projetam narrativas sobre uma cidade. Quando a narrativa dominante passa a ser a da inacessibilidade, o impacto vai além de um fim de semana de competições — atinge a memória coletiva e o fluxo turístico futuro. A tarefa agora não é apenas ajustar logística, mas resgatar a imagem de Cortina como destino aberto, acolhedor e vivo, capaz de combinar o esplendor competitivo com a hospitalidade que a tradição das Dolomitas exige.
Se a organização técnica tem de continuar a priorizar segurança e sustentabilidade, também precisa investir com urgência em comunicação transparente e em medidas que incentivem o público a retornar: preços, transporte e informação são alavancas que podem transformar um dia de prova em um gesto de confiança renovada.






















