Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Hoje, na Itália, cerca de 80% das crianças diagnosticadas com um tumor conseguem chegar à cura. Esse triunfo clínico abre, porém, uma nova responsabilidade: reduzir ao máximo os efeitos colaterais que comprometem a qualidade de vida pós-tratamento. No centro desse desafio está a ototoxicidade, ou seja, a redução da função auditiva associada a algumas quimioterapias e a radioterapia. Embora não seja a complicação mais frequente, sua presença pode transformar o futuro social, escolar e profissional de um sobrevivente.
É com esse pano de fundo que se inserem protocolos experimentais e estratégias de prevenção elaboradas pela AIEOP (Associação Italiana de Hematologia e Oncologia Pediátrica). Como lembra Angela Mastronuzzi, presidente da AIEOP, “graças aos progressos della ricerca, mais de 50 mil pessoas na Itália são hoje consideradas curadas de um tumor infantil. Metade tem mais de 25 anos e, segundo a lei do esquecimento oncológico, devem ser tratadas como qualquer cidadão que nunca teve câncer. É, portanto, essencial limitar os efeitos colaterais a longo prazo”. Para isso, é necessária uma abordagem personalizada, equipes multidisciplinares e unidades hospitalares adequadas.
Quem está em maior risco? A oncologista pediátrica Michela Casanova, do Instituto Nacional dei Tumori de Milão, aponta dois fatores principais: tratamentos com radioterapia craniana e quimioterápicos à base de platina (como cisplatino, carboplatino e oxaliplatino). O cisplatino, embora antigo, permanece entre os agentes mais eficazes no combate a tumores pediátricos — hepatoblastoma, tumores germinativos, neuroblastoma e meduloblastoma entre eles — mas traz consigo o risco de uma hipoacusia neurossensorial frequentemente irreversível.
O risco não é uniforme: depende da idade (crianças menores têm maior vulnerabilidade), de fatores genéticos individuais e da dose acumulada recebida. Além disso, a combinação de radioterapia no encéfalo com quimioterapia aumenta a probabilidade de dano auditivo.
Felizmente, nas últimas décadas surgiram estratégias para reduzir essa toxicidade. Entre elas:
- Monitoramento auditivo sistemático antes, durante e após o tratamento (testes de emissões otoacústicas e audiometria tonal e de alta frequência).
- Otimização das doses e dos tempos de infusão dos agentes à base de platina, quando compatível com a eficácia oncológica.
- Uso de agentes otoprotetores em protocolos selecionados: por exemplo, estudos controlados demonstraram redução da perda auditiva com o uso de sulfato de sódio (sodium thiosulfate) em contextos específicos, sem comprometer a eficácia antitumoral em alguns tumores pediátricos; outros fármacos como amifostina têm resultados mais controversos e exigem avaliação cuidadosa.
- Intervenção precoce com dispositivos de amplificação auditiva, reabilitação fonoaudiológica e, quando indicado, implante coclear para perdas profundas.
Do ponto de vista organizacional, a lição é clara: tratar crianças com câncer exige planejamento que vá além da remissão tumoral. É preciso combinar protocolos oncológicos eficazes com medidas de proteção e de reabilitação auditiva. A monitorização regular permite intervenções precoces, que podem atenuar prejuízos escolares e sociais. Além disso, a escolha entre diferentes esquemas quimioterápicos deve ponderar sempre o equilíbrio entre eficácia e toxicidade a longo prazo.
Há, também, uma dimensão ética e social. A possibilidade de viver muitos anos após o câncer infantil coloca sobre médicos e gestores a obrigação de garantir não apenas a sobrevivência, mas a qualidade de vida. A AIEOP e centros de referência trabalham para que rotinas de avaliação auditiva, protocolos de proteção e caminhos de reabilitação façam parte do padrão de cuidado.
Em termos práticos, famílias e escolas precisam ser informadas sobre o risco de perda auditiva e orientadas para sinais de alerta — atraso na linguagem, dificuldades escolares, solicitações constantes de repetição. A rede de cuidados deve incluir pediatras, oncologistas, otorrinolaringologistas, fonoaudiólogos e serviços de apoio psicossocial.
O campo ainda exige pesquisas. Novas estratégias farmacológicas, biomarcadores genéticos para estratificar risco e tecnologias de audiometria mais sensíveis prometem reduzir ainda mais o impacto da ototoxicidade. Enquanto isso, a combinação de vigilância, prevenção e reabilitação permanece a melhor resposta para que as conquistas contra o câncer infantil não se paguem com limitações evitáveis na vida adulta.
Resumo: reduzir os danos auditivos nos sobreviventes de câncer infantil é uma frente central da oncologia pediátrica contemporânea — técnica, organizativa e ética. É um problema que exige soluções integradas e contínuas para transformar a cura em qualidade de vida duradoura.






















