Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
Nos últimos meses, a movimentação das jogadoras italianas pelo mercado internacional ganhou contornos que vão além de meras transferências esportivas: trata-se de um deslocamento simbólico que reinterpreta a relação entre formação nacional, mercado e visibilidade global.
O caso mais recente foi o de Lucia Di Guglielmo, que deixou a Roma em janeiro para assinar por quatro anos com o Washington Spirit. A negociação foi conduzida por Alessandro Orlandi, fundador e CEO da Assist Women, agência hoje referência no futebol feminino internacional. Orlandi resume uma transformação que muitos, no passado, trataram com ironia: da equipe que acompanhava cem jogadores e quatro jogadoras, a empresa passou a dedicar-se majoritariamente ao universo feminino — hoje com cima de 100 atletas sob acompanhamento, enquanto o quadro masculino encolheu.
“Quando começamos com a primeira jogadora, vieram muitos trocadilhos. Hoje essas mesmas pessoas nos pedem camisas assinadas e ingressos”, diz Orlandi, em tom que mistura satisfação e confirmação de um processo estrutural. As últimas janelas de mercado demonstraram que clubes das ligas mais competitivas observaram com atenção o talento italiano: Elena Linari (transferida ao Atlético de Madrid e campeã da Liga em 2018/19), Aurora Galli (rumo à Premier League quase cinco anos atrás, ao Everton), Lisa Boattin (Houston Dash), Sofia Cantore (Washington Spirit) e Arianna Caruso (Bayern de Munique) são exemplos dessa diáspora seletiva.
Parte do interesse se explica por critérios objetivos. Para jogar na Inglaterra, por exemplo, clubes da WSL aplicam os chamados Gbe Criteria — um filtro que considera presenças em ligas nacionais, competições internacionais, minutos acumulados, posição e desempenho do clube, percurso europeu e ranking da seleção. Assim, a seleção italiana, que no último Europeu chegou perto de uma final histórica, ofereceu um espelho recente do valor de mercado das suas atletas.
Mas os motivos vão além dos números. Segundo Orlandi e anos de observação da evolução do jogo, há fatores culturais e estruturais que tornam as atletas italianas apetecíveis: formação tática sólida, disciplina posicional, capacidade de leitura do jogo e uma resiliência de caráter que casa bem com as demandas de clubes que buscam liderança dentro e fora de campo. Em outras palavras, procuram-se jogadoras que tragam não só técnica, mas coerência tática e personalidade — qualidades que emergem, muitas vezes, de um sistema formativo italiano ainda ancorado em tradição e método.
Outro componente decisivo é o da profissionalização e das condições contratuais. Ligas como a NWSL nos Estados Unidos, a WSL inglesa e a Frauen-Bundesliga oferecem estruturas, visibilidade e, frequentemente, remuneração e garantias superiores às que o mercado italiano consegue sustentar hoje. Para muitas atletas, a escolha pelo exterior representa a conjugação entre ambição esportiva e necessidade material — um reconhecimento profissional que também alimenta trajetórias pessoais e coletivas.
Em termos simbólicos, a saída de talentos também permite ao futebol feminino italiano reposicionar-se: perde-se, no curto prazo, parte do brilho doméstico, mas ganha-se em reputação e rede de relações internacionais. Jogadoras que acumulam experiência em outras ligas tendem a regressar — direta ou indiretamente — como vetores de modernização, seja por meio de retorno esportivo, seja pela difusão de práticas profissionais e culturais.
Assist Women, neste processo, funciona como catalisador: além de negociar contratos, estrutura carreiras e traduz expectativas entre clubes e atletas. O fenômeno, portanto, não é apenas um êxodo, mas uma fase de maturação do sistema: clubes e federações italianas são desafiados a responder com políticas de investimento, infraestrutura e valorização profissional se desejam reter suas melhores representantes.
Ao olhar histórico e cultural que devemos aplicar, cabe sublinhar que cada transferência conta uma história maior — sobre identidade, economia e transformação do esporte na Itália. O movimento recente é sintoma de um futebol feminino em transição, capaz de produzir protagonistas que agora circulam por palcos maiores. Resta saber se essa circulação se converterá, nos próximos anos, em retorno de capital simbólico e estrutural para o país.



















