Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes da Espresso Italia.
As Paralimpiadi Milano Cortina 2026 chegam à Arena di Verona sob uma tensão que transcende o campo esportivo: a cerimônia de abertura desta sexta‑feira, 6 de março, foi reduzida a um gesto político. Vários países optaram por não participar do evento em protesto à decisão do Comitato Paralimpico Internazionale (IPC) de admitir atletas da Rússia (seis atletas) e da Bielorrússia (quatro atletas) com direito a bandeira e hino.
Segundo o porta‑voz do IPC, Craig Spence, delegações da Ucrânia, Estônia, Finlândia, Letónia, Lituânia, República Tcheca e Polônia decidiram ausentar‑se da cerimônia como forma de boicote. Além disso, Ucrânia, Estônia, Finlândia e Letónia optaram por não transmitir a cerimônia ao vivo em seus canais oficiais. A Polônia, em gesto simbólico, informou que interromperá as transmissões no momento da entrada das bandeiras russa e bielorrussa.
A posição francesa foi distinta: o governo não enviará representantes institucionais a Verona, mas deixará aos atletas a liberdade de participação. Em contrapartida, não comparecerão à abertura atletas do Canadá, do Reino Unido e da Alemanha, ampliando a lista de ausências que transforma a noite em um palco de tensões diplomáticas.
Uma alteração prática e simbólica chamou atenção: durante a cerimônia, os tradicionais portabandiera serão substituídos por voluntários, e não por atletas. O IPC justificou a decisão com duas razões convergentes: a necessidade de manter uma aparência de unidade entre as delegações e razões logísticas — muitas competições ocorrerão em locais distantes de Verona, com início já previsto para a manhã de sábado.
É impossível separar este episódio de precedentes históricos. A lembrança mais óbvia remete aos Jogos de Moscou em 1980, quando boicotes e contraboicotes condicionaram desfiles sem bandeiras e afiavam a dimensão política das grandes festas esportivas. Aqui, como ali, o esporte deixa de ser apenas exibição de performance para tornar‑se arena de princípios, reflexo de um mundo onde decisões geopolíticas reverberam em cada megacobertura e protocolo.
Como analista atento às tramas que sustentam o esporte europeu, vejo na ausência deliberada de estados e na substituição dos portadores de bandeira um sinal: a Paralimpiadi Milano Cortina 2026 não será apenas sobre resultados e recordes, mas sobre como as instituições do esporte negociam legitimidade num contexto de rupturas políticas. A escolha de voluntários por razões logísticas, legítima em parte, não apaga o caráter profundamente simbólico da cena — e tampouco o descontentamento de países que entendem presença e representação como expressão de solidariedade e condenação.
Nos próximos dias, a competição retomará seu foco técnico e humano. Mas a cerimônia de abertura já entrou para a memória do evento como um momento em que o paralímpico se imiscuiu, mais uma vez, na geografia das tensões internacionais.






















