Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — O Comitê Paralímpico Internacional (IPC) confirmou que as delegações russa e bielorrussa participarão dos Jogos Paralímpicos de Inverno de Milano Cortina 2026 com direito a hino, bandeira e uniformes oficiais nas cores nacionais. A decisão, ratificada pelo órgão internacional nas últimas horas, repete e formaliza o entendimento aprovado pelo Executivo do IPC em Seul no ano passado.
Do ponto de vista prático, a representação russa recebeu seis vagas: duas no esqui alpino paralímpico (um homem e uma mulher), duas no esqui de fundo paralímpico (um homem e uma mulher) e duas no snowboard paralímpico (ambas masculinas). A delegação bielorrussa ganhou quatro lugares, todos para o esqui de fundo (um masculino e três femininos).
O IPC também deixou claro que os atletas russos e bielorrussos serão “tratados como qualquer outro país”, expressão que carrega implicações políticas e simbólicas numa temporada em que o esporte segue atravessado por decisões jurídicas e pressões diplomáticas. A medida irritou Kiev, que mantém o pedido de exclusão de competidores de ambos os países das arenas internacionais.
Para entender essa mudança é preciso lembrar a trajetória desde 2022: poucos dias após a intervenção militar russa na Ucrânia, o Comitê Olímpico Internacional (COI) recomendou a exclusão inicial de Rússia e Bielorrússia das competições. Cerca de um ano depois, contudo, o COI autorizou a participação de atletas como ‘atletas neutros individuais’ (AIN), com condições — o não apoio explícito à operação militar e a ausência de vínculo com clubes militares ou forças policiais.
Em dezembro passado o COI foi além, recomendando às federações internacionais que readmitissem Rússia e Bielorrússia em competições de base e juniores. A linha adotada nos últimos meses resultou em presenças já visíveis: nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milano Cortina 2026 havia 13 russos e 7 bielorrussos atuando como Ain. Paralelamente, o Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) acolheu recursos de atletas russos contra a exclusão promovida pela Federação Internacional de Esqui (FIS), abrindo precedentes que pesaram nas decisões subsequentes.
O panorama, contudo, não é uniforme. Em modalidades coletivas, como o futebol, a Rússia segue excluída das eliminatórias para a Copa do Mundo e do Campeonato Europeu. Na esfera administrativa, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, chegou a pedir que a UEFA revisitasse as sanções, pedido que tem encontrado forte resistência.
Mais do que uma questão esportiva, esta reintrodução simbólica do hino e da bandeira revela a incapacidade das organizações internacionais de manter posturas permanentes diante de pressões judiciais, políticas e mediáticas. A decisão do IPC é, portanto, um recorte de uma trama maior: o esporte mundial que tenta conciliar princípios éticos, a integridade das competições e a dinâmica de um mapa geopolítico em transformação.
Para o público e para as federações, resta observar como essa normalização institucional será recebida nas pistas e nas comunidades locais que veem no esporte um reflexo de identidades e memórias coletivas. Em Milano Cortina, os símbolos voltarão a ecoar — e com eles retornarão debates que ultrapassam a linha de chegada.






















