O anúncio de que, nos próximos Jogos Paralímpicos de Cortina 2026, deverão ser hasteadas a bandeira russa e a bandeira bielorrussa reacende uma pergunta moral e política que atravessa o esporte contemporâneo: como conciliar a celebração dos direitos e da igualdade — razões de ser das Paralimpíadas — com a presença simbólica de Estados acusados de agressão a um país vizinho?
As Paralimpíadas nasceram como resposta a séculos de discriminação e marginalização de pessoas com deficiência. Elas são, por definição, uma plataforma que reivindica dignidade, proteção e igualdade. É por isso que causa estranheza e inquietação ver que, apenas a algumas semanas do início dos Jogos (6 a 15 de março de 2026), o comitê organizador tenha permitido que as insignias de países envolvidos em operações militares na Ucrânia possam ser visíveis nas cerimônias e nas delegações.
Relatos da agência TASS citam ao menos trinta militares russos — soldados que, segundo a versão oficial, participaram das operações na Ucrânia desde 2022 e sofreram ferimentos durante o conflito — e que agora, por causa dessas lesões, estariam aptos a ocupar um lugar nas delegações paralímpicas. A leitura é simples e incômoda: homens marcados por uma guerra de agressão que depois se tornaram pessoas com deficiência estarão lado a lado, sob as mesmas bandeiras, com atletas cuja vida cotidiana foi atingida pelos bombardeios e pelos deslocamentos.
Mais comovente ainda é o contraste narrativo vivido fora do protocolo: na véspera, atletas ucranianos que jantavam em Cortina — entre eles Anastasiia Shepilenko (esqui), Oleksandra Merkurshyna (biatlo) e Serhii Sednev (biatlo) — receberam alertas de bombardeio nos telefones, ordenando que parentes e amigos buscassem abrigo contra ataques aéreos. A imagem é dura e resume a suspensão de uma paz real. É legítimo perguntar se existe sentido em falar de uma trégua olímpica quando, do outro lado do telefone, continuam a chegar sons de guerra.
Não se trata aqui de uma tomada de posição gestual, mas de examinar o papel das instituições esportivas num cenário onde o esporte torna-se, necessariamente, arena de memória e disputa política. As Paralimpíadas são também um espaço de reafirmação de direitos e de reparação simbólica. Colocar sob o mesmo teto atacantes e atacados, sem ao menos uma pausa formal ou reconhecida nas hostilidades, é uma decisão que pesa — não apenas sobre a estética das cerimônias, mas sobre a legitimidade do evento enquanto ato público de reconhecimento e proteção.
Como analista atento à história do esporte, reafirmo que estádios e pódios sempre foram mais do que palco de resultados: são lugares onde identidades, memórias e autoridade se negociam. Admitir que bandeiras de Estados envolvidos em campanhas militares sejam vistas enfunadas nos Alpes italianos enquanto a guerra prossegue é optar por um gesto de normalização. Resta perguntar: a quem serve essa normalização e que mensagem ela envia às vítimas, aos atletas que carregam cicatrizes recentes e às comunidades que aguardam justiça?
O desafio para Cortina 2026 é, portanto, político e ético. Não basta celebrar a superação individual se a comunidade internacional não leva em conta as hierarquias e os desequilíbrios que criaram essas feridas. O esporte pode e deve ser ponte — mas não quando a ponte apressa o esquecimento.
Otávio Marchesini é repórter de Esportes da Espresso Italia. Especialista em história e cultura esportiva, analisa o esporte como reflexo das dinâmicas sociais e políticas.






















