Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
Na metade do percurso, as Olimpíadas de Milano-Cortina apresentam um balanço que combina entusiasmo popular e tensões econômicas. Segundo dados oficiais da Fundação Milano Cortina, na primeira semana foram comercializados 1,27 milhão de ingressos, com uma taxa média de ocupação superior a 85% e episódios próximos ao ‘sold out’ em provas de maior apelo.
Andrea Varnier, administrador da fundação, destacou a necessidade de manter foco nos próximos dias, mas reconheceu que os números indicam um resultado largamente positivo. O protagonismo público coube ao esqui alpino: em Bormio foram ocupados 94,7% dos lugares, cifra que traduz não apenas uma paixão esportiva, mas uma afluência que redesenha o calendário turístico das localidades de montanha.
Eventos no gelo também registraram elevados índices de público: as competições de patinação em Milão alcançaram 90% de lotação; Anterselva, palco do biatlo, obteve 88,7%; o slittino em Cortina vendeu 87% dos bilhetes; e o salto com esquis em Livigno atingiu 90%.
As projeções para a segunda semana mantêm o tom de otimismo. Para o patinagem artístico, por exemplo, restam apenas 6% dos assentos disponíveis nos bilhetes vendidos online e nas bilheterias de Milão — um indicador da popularidade da disciplina e do poder de atração das competições urbanas.
No entanto, a fotografia de venda convive com um detalhe sensível: os preços. A variação é ampla e por vezes elevada. No hóquei, os ingressos para fases preliminares femininas começaram em 35 euros, enquanto para os quartos de final masculinos o valor chegou a 400 euros. A procura pelo patinagem elevou tarifas acima de 600 euros; qualificações de short track chegaram a 450 euros. Provas como bobsled custam entre 70 e 100 euros, e o esqui de fundo parte dos 50 euros.
Fora de escala, os bilhetes para a cerimônia de encerramento na Arena de Verona variam entre 950 e 2.900 euros — um patamar que traduz a tensão entre espetáculo e acessibilidade e abre um debate sobre quem efetivamente participa da experiência olímpica.
O efeito econômico também aparece na hotelaria: Anterselva registrou 100% de ocupação, enquanto Milão reporta um acréscimo estimado de 400.000 presenças no mês de fevereiro, sinalizando um impacto relevante sobre o setor de hospedagem e serviços locais.
Do ponto de vista social e cultural, os números confirmam que as Olimpíadas são hoje um evento multifacetado: atraem espectadores como consumidores de um produto complexo — esporte, turismo e espetáculo — e pressionam as estruturas locais para responderem tanto à demanda quanto às questões de equidade de acesso.
Em síntese, 1,27 milhão de ingressos vendidos é motivo de celebração institucional, mas a fotografia completa exige olhar crítico sobre preços, distribuição geográfica do público e legado deixado às comunidades anfitriãs.
16 de fevereiro de 2026 — Espresso Italia





















