Por Otávio Marchesini — Espresso Italia
Há imagens que duram mais do que um resultado: elas condensam humores, feridas e orgulhos de uma sociedade. Neste álbum de Olimpíadas, selecionei os cliques que passaram pela televisão e pelas redes como pequenas pedras de memória coletiva — entre reverência, surpresa, dor e ironia.
Começamos pela cena que forçou uma pausa nas transmissões: o presidente, simples e presente, fotografado a bordo de um bonde. A imagem de Mattarella em transporte público suprime a pompa e lembra que o espetáculo olímpico também transpira cidade, logística e cotidiano. Esse tipo de foto funciona como um laço entre a instituição e a população: autoridade que se desloca e, ao deslocar-se, humaniza a festa.
Outra foto que não sai da cabeça é o instante em que Federica Brignone recebe a adulação de quem a esperava no fim do esforço. A imagem da atleta recebendo respeito e carinho no ponto final da dor — a celebração da superação — é, em termos simbólicos, um dos retratos mais claros do que as Olimpíadas querem contar sobre resiliência e estratégia pública do esporte.
Há também imagens mais curiosas, que misturam notícia e anedota: o britânico Andrew Musgrave, nascido no Alasca, que chamou a atenção com uma escolha de roupa ousada na prova de fundo, e a cena de McGrath que, depois de uma prova, parece buscar a própria solidão na mata — um gesto que virou síntese do desgaste psicológico desses dias em que cada centímetro é observado.
As fotografias não economizam nas contradições. Vimos rostos marcados pela guerra: o capacete de um atleta ucraniano, cuja presença nas pistas foi marcada por controvérsias; cortes e sangue, como no caso de uma patinadora polonesa atingida por um salto alheio; e imagens de agressividade — as brigas em jogos de hóquei entre seleções tradicionais — que devolvem ao público uma versão primitiva do duelo atlético.
Também ficaram imagens de cuidado e humanidade: a atenção de equipes médicas em hospitais locais, mostrada até com um certo lirismo midiático quando envolveu atletas como Lindsey Vonn — cenas que lembram que, atrás do brilho, existe fragilidade e uma cadeia de suporte invisível.
Entre as imagens mais comentadas esteve a do norueguês Sturla Laegreid, cuja expressão e gesto suscitaram manchetes e brincadeiras — a foto entrou no repertório da competição como se fosse uma pequena fábula sobre fama e intimidade em época de Valentine’s. E houve ainda o drama individual: Ilia Malinin em lágrimas após um deslize e o confronto tenso com a figura paterna, um quadro que evoca as exigências — às vezes cruéis — da formação de campeões.
Por fim, o que fica deste conjunto é a ideia de que as Olimpíadas são, musicalmente, uma colagem. Há risos e prantos, gestos de bravura e de cansaço, momentos em que o esporte se transforma em signo: a atleta que vira ícone, o presidente que vira cidadão, a queda que vira alerta. As imagens nos lembram que a competição não se esgota no placar: ela segue fazendo história por meio de olhares, poses e silêncios capturados em um segundo.
Se o álbum final é heterogêneo, é porque a sociedade que assiste também é. E é nesse tecido, às vezes áspero, que constroem-se as memórias públicas das Olimpíadas — pequenas fotografias que, juntas, contam algo maior do que cada vitória isolada.





















