Franky, a pappagallina que se tornou símbolo vivo da memória de Michele Scarponi, morreu ontem em um incêndio na empresa de reciclagem Luchetta srl, entre Padiglione di Osimo e Filottrano, província de Ancona. O fogo, que deflagrou no final da tarde, não deu chance ao animal pertencente a Giacomo Luchetta, amigo do ciclista e proprietário da oficina.
A ave — uma fêmea da espécie Ara conhecida por pousar nas costas do ciclista durante os treinos — havia se tornado figura recorrente nas imagens publicadas por Scarponi quando ele ainda vivia. Após a morte do campeão do Giro d’Italia, em 22 de abril de 2017, vítima de um acidente de trânsito, Franky assumiu um papel quase ritual na paisagem das estradas de Filottrano, onde passavam os pelotões amadores e profissionais que a reconheciam e respeitavam.
Segundo relatos locais, a pappagallina havia sobrevivido a outro episódio traumático em 2018, quando foi atropelada e encontrada com uma asa quebrada. Recuperada, voltou a voar livremente e a acompanhar os ciclistas que, ao longo dos anos, transformaram a sua presença em gesto de homenagem permanente a Michele Scarponi. Um mural na estrada onde o campeão foi atingido lembra hoje a dupla — ciclista e ave — que se associou à memória pública do lugar.
A Fondazione Michele Scarponi e Marco Scarponi, irmão do atleta, publicaram nas redes sociais uma mensagem de despedida: “Ciao bellissima Franky. Continuerai a volare con noi all’infinito”. A Fundação recordou também iniciativas comunitárias vinculadas ao animal, como o projeto “Vola Franky” e eventos de caráter solidário realizados em datas como Natal e Páscoa, com campanhas batizadas inclusive de “Uovo Franky”.
O incêndio na Luchetta srl reabre, com tal brutalidade, a reflexão sobre como símbolos — por vezes improváveis — se tornam pontos de coesão social. Em uma região marcada pela tradição ciclística, Franky funcionou ao longo dos anos como um elo entre passado e presente: não apenas um animal de estimação, mas um marcador de memória coletiva que ajudou a transformar o luto por um campeão em práticas visíveis de lembrança e continuidade.
Do ponto de vista cultural, a história de Franky ilustra como o esporte ultrapassa os limites da competição: cria rituais, iconografias e afetos. Estádios e estradas tornam-se espaços de narrativa. Atletas e seus símbolos — neste caso, um papagaio que voava entre treinamentos — viram referência para fãs, ciclistas locais e visitantes que, ao passar por Filottrano, encontravam ali uma história que combinava tragédia, resiliência e um peculiar senso de comunidade.
Em termos práticos, o proprietário da empresa e amigo de Scarponi, Giacomo Luchetta, deverá colaborar com as autoridades locais nas investigações sobre as causas do incêndio. Enquanto isso, para a comunidade e para os que acompanharam a trajetória do campeão da Astana, resta a imagem de Franky voando mais uma vez, agora no imaginário coletivo ao lado de Michele Scarponi.
O episódio lembra que a preservação da memória esportiva se dá tanto por monumentos e murais quanto por gestos cotidianos: um papagaio pousado nas costas de um ciclista, um vídeo publicado nas redes, uma página seguida por muitos. Esses fragmentos, quando reunidos, constroem a narrativa duradoura de um lugar e de um tempo. A despedida oficial da Fundação resume em poucas palavras o que essa presença representou: “Agora torneranno a volare insieme, lei e Michele”.
Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia.






















