Por Otávio Marchesini, Espresso Italia.
Em uma prova que sintetiza técnica, estratégia e caráter, a dupla italiana formada por Michela “Miki” Moioli e Lorenzo Sommariva garantiu a medalha de prata no snowboard cross misto dos Jogos de Milano-Cortina 2026. O resultado não é apenas mais um pódio: representa um marco coletivo, pois a medalha contribuiu para que a Itália superasse o recorde de Lillehammer 1994, alcançando a 21ª medalha do evento.
Para Sommariva, veterano experiente da seleção, trata-se do primeiro pódio olímpico. A parceria com Miki já havia dado frutos em nível mundial — ambos dividiram a prata no Campeonato Mundial de 2021, na Suécia —, mas o cenário olímpico confere à conquista um peso simbólico maior. Moioli, por sua vez, amplia uma trajetória que já incluía o bronze individual conquistado na sexta-feira e a prata por equipes em Pequim 2022, ao lado de Omar Visintin.
A dinâmica da prova demonstra por que o snowboard cross é um espelho das escolhas táticas: o formato coloca sempre o homem na partida inicial, e Sommariva aproveitou para abrir distância na primeira descida. Nos quartos de final, entretanto, Moioli mostrou sua capacidade de recuperação — saindo da última posição para reassumir a liderança da bateria — e anulou parte do déficit acumulado pelo parceiro. A semifinal repetiu essa mesma necessidade de sobra técnica e nervos de aço; de novo, uma ação decisiva no último salto definiu a passagem.
Na big final, Sommariva resistiu a um começo adverso — beneficiado também pela queda do australiano Adam Lambert — e segurou uma terceira colocação crucial. Coube a Moioli gerir a corrida com prudência e aproveitar a oportunidade no trecho final para ultrapassar a francesa Léa Casta e assegurar o segundo lugar. O ouro ficou com a Grã-Bretanha, através de Charlotte Bankes e Huw Nightingale; o bronze com a França, representada por Loan Bozzolo e Léa Casta.
Nem todas as esperanças italianas prosperaram: a outra dupla nacional, Omar Visintin e Sofia Groblechner, foi eliminada ainda nos quartos de final.
A história pessoal de Michela Moioli adiciona um elemento de resistência emocional à conquista. A snowboarder de Bergamo, agora com 30 anos, vinha de uma queda em treino que deixou marcas visíveis no rosto e dúvidas sobre sua participação — ainda assim, transformou a recuperação física e a rotina de competição em energia convertida em medalha.
No entorno institucional, o presidente da Fundação Milano Cortina, Giovanni Malagò, celebrou o resultado como fruto de anos de trabalho coordenado entre Coni, comissão de preparação olímpica, FISI e FISG, destacando a sinergia entre estruturas e atletas: “Siamo felicissimi, al settimo cielo”, afirmou, ressaltando que a diferença foi feita também pela competência técnica e pela qualidade das equipes de apoio.
Mais do que um resultado esportivo, a prata de Moioli e Sommariva funciona como um retrato da presença italiana nos Jogos: uma combinação de tradição, formação técnica e capacidade de reagir sob pressão — elementos que traduzem o esporte como fenômeno social e memória coletiva.





















