Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em uma conferência de imprensa marcada pela emoção contida e pelo peso de uma história pessoal, Federico Tomasoni — prata olímpica no ski cross — dedicou seu momento de glória à memória da namorada, a jovem promessa do esqui alpino Matilde Lorenzi, vítima de um trágico acidente de treino em outubro de 2024.
O gesto foi visível e simbólico: sob a neve de Livigno, no capacete de Tomasoni brilhou um sol, emblema da fundação criada em homenagem a Matilde. A família da atleta vem trabalhando para transformar o luto em ação, propondo projetos destinados a elevar os padrões de segurança nas pistas — uma pauta que, nas palavras do atleta, ultrapassa o privado e toca a responsabilidade coletiva do esporte.
“É tudo muito emocionante. Eu tinha imaginado este momento, as fábulas existem”, disse Tomasoni com os olhos marejados, reconhecendo que já havia realizado, em parte, um sonho ao chegar ao pódio em Milão‑Cortina 2026. Ao mesmo tempo, afirmou que será preciso tempo para compreender integralmente as circunstâncias do incidente que tirou Matilde: “Agora, para entender o que aconteceu, vai ser preciso um pouco de tempo”.
O reconhecimento vindo dos pares também foi uma dimensão significativa da narrativa. Simone Deromedis, ouro naquela prova épica, elogiou a trajetória do colega: “O que o Fede passou não é fácil, houveram períodos escuros e nós tentamos ficar ao lado dele. Foi realmente um grande, um duro. Esta medalha ele merece toda” — acrescentando uma leitura quase teleológica ao resultado, ao falar de destino e karma.
Como observador que relaciona o esporte às suas estruturas sociais e culturais, vejo nessa cena um retrato multifacetado: por um lado, a celebração do feito atlético; por outro, a reclamação por mais segurança e por memória ativa. Estádios, pistas e equipamentos não são apenas cenários de conquistas individuais; são espaços onde se concentram escolhas institucionais, investimentos e negligências possíveis. A presença do símbolo de Matilde no capacete de Tomasoni é também um lembrete público dessa responsabilidade.
A prata conquistada por Tomasoni, em si, reescreve parte de sua narrativa pessoal e esportiva — transforma dor em uma plataforma visível. Mas seria míope ver apenas uma história de superação. A tarefa que se impõe agora, e que a família Lorenzi tenta formalizar através da fundação, é institucionalizar melhorias que preservem vidas e carreiras nas montanhas europeias: melhores protocolos de segurança, monitoramento de condições e formação técnica para treinadores e atletas.
No fim, o gesto de Tomasoni em Livigno — e as palavras que o acompanharam — estimulam uma reflexão mais ampla sobre memória, risco e a maneira como as sociedades valorizam (ou não) a vida dos jovens atletas. A prata é uma conquista esportiva; a resposta coletiva às perguntas que cercam a tragédia será o teste de sua verdadeira relevância.





















