Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
Uma das noites mais surpreendentes desta edição de Milano Cortina aconteceu no Forum de Assago, onde o favoritismo se desfez ao vivo e o cenário do patinação artística masculino foi redesenhado. Num programa livre marcado por erros e rupturas de ritmo, o astro norte-americano Ilia Malinin terminou apenas em 8º lugar — uma decepção que reverbera além das posições numéricas, expondo tensões técnicas e simbólicas do esporte moderno.
O ouro ficou com o jovem cazaque Mikhail Shaidorov (nascido em 2004), cuja apresentação, mais contida do que explosiva, foi suficiente para capitalizar as falhas dos concorrentes e garantir a vitória. Completaram o pódio os japoneses Yuma Kagiyama (prata) e Shun Sato (bronze), sinalizando a persistente força do Japão em conjugar técnica e expressão.
Para a Itália, a noite trouxe frustração: Daniel Grassl, frequentemente anunciado como candidato a medalha diante de sua torcida na Milano Ice Skating Arena, ficou fora do pódio com um total de 263.71 pontos. É uma leitura dupla — a sensação coletiva de oportunidade perdida e, ao mesmo tempo, a evidência de que o patinaje contemporâneo privilegia a gestão do erro tanto quanto o salto perfeito.
Como analista, é preciso situar esses resultados num quadro maior. A queda de rendimento de Ilia Malinin não é apenas uma notícia de caráter esportivo; é um lembrete sobre os limites da especialização técnica quando encontra a pressão competitiva olímpica. Malinin, conhecido por empurrar as fronteiras dos elementos mais técnicos do programa, encontrou na noite italiana um teste de resistência psicológica e de consistência.
Do outro lado, a ascensão de Mikhail Shaidorov diz muito sobre mudanças na geografia do patinaje: investimentos, treinamento e presença em circuitos internacionais permitem que países fora do eixo tradicional imponham seus expoentes. Isso transforma cada campeonato em um mapa mutável de influências culturais e políticas, onde vitórias têm significado simbólico para federações e identidades nacionais.
O que resta ao público e aos clubes é a consequência prática: reequilibrar formação técnica com trabalho mental, repensar calendários de competição e considerar o papel dos grandes eventos como palco de afirmações nacionais. Em termos humanos, a vitória de Shaidorov e o tropeço de Malinin lembram que o esporte é simultaneamente arte, ciência e espetáculo — e que cada programa livre é uma narrativa curta, capaz de reescrever carreiras.
O evento no Forum de Assago ficará como um capítulo notável na história de Milano Cortina: uma prova de que, mesmo entre favoritos, a incerteza persiste, e que os pódios muitas vezes consagram quem melhor soube administrar a noite.
— Otávio Marchesini, Espresso Italia





















