Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em meio ao ritmo acelerado e à obsessão pela renovação geracional que molda o esporte moderno, duas presenças em Milano Cortina desafiaram a narrativa dominante: o americano Richard Ruohonen, 54 anos, e a austríaca Claudia Riegler, 52 anos. Ambos não são figuras anedóticas; são sinais de que a carreira esportiva pode ter trajetórias menos lineares do que o imaginário coletivo costuma supor.
Ruohonen, apelidado de ‘o avô do curling’, chegou ao palco olímpico como reserva e acabou sendo acionado contra a Suíça — partida que terminou em derrota por 8-3. Ainda assim, a sua entrada em campo foi tratada pelos companheiros como um reconhecimento justo: “Não estamos fazendo um favor ao inseri-lo. Ele merece e estamos felizes por tê-lo na equipe”, comentou um colega, que tem menos da metade da idade de Ruohonen.
O jogador, que na vida civil atua como advogado, descreveu a experiência com a sobriedade de quem conhece o passado e observa a mudança das práticas esportivas: “Foi um momento fantástico para mim, mesmo depois de uma derrota. O sonho se realizou. Venho de tempos em que os homens fumavam cigarros no gelo e tudo o que fazíamos era lançar pedras e achar que podíamos melhorar. Já não é assim há 20 anos.” A frase, além de coloquial, é um indicador de como o esporte se profissionalizou e se tornou menos permissivo, sem, contudo, apagar trajetórias individuais duradouras.
Do outro lado da moeda, Claudia Riegler representa uma resposta pessoal e simbólica a exclusões anteriores. Aos 30 anos, ela foi descartada de uma equipe por ser considerada “velha” — um episódio que ilustra a ênfase excessiva na juventude. Em Milano Cortina, ela afirma simplesmente: “Estou aqui”. Competindo no Livigno Snow Park, Riegler não disputava uma medalha como objetivo principal, mas a presença já tinha caráter de reparação moral. Eliminada nos oitavos de final, ela deixou claro que ainda tem ritmo: “Sei que ainda posso ir rápido e isso me orgulha. Há muito que se pode fazer se se persevera, se se acredita em si mesmo.”
O que essas histórias dizem sobre o esporte contemporâneo? Primeiro, que a idade é uma variável complexa — biológica, social e institucional. Segundo, que as estruturas que regulam seleções, patrocínios e formação tendem a privilegiar trajetórias lineares, frequentemente em detrimento de percursos tardios ou de reconversão. Terceiro, que o retorno de atletas veteranos nem sempre se traduz em pódios; por vezes, tem valor simbólico e pedagógico, ao desafiar preconceitos e inspirar gerações.
Como observador que relaciona esporte e memória coletiva, vejo em Ruohonen e Riegler mais do que duas aparições: vejo dois pontos de ancoragem para uma reflexão necessária sobre continuidade, experiência e reconhecimento. Não se trata de romantizar a idade — trata-se de reconhecer que, em modalidades como curling e snowboard, resistência, técnica e leitura de jogo podem conviver com a experiência, e que a sociedade esportiva ganha quando abre espaço para narrativas diversas.
Em Milano Cortina, as páginas dedicadas a medalhas e recordes são legítimas. Mas há também espaço para histórias que recolocam a experiência como valor — e nos lembram que, se alguém disser que é hora de se aposentar, talvez valha a pena não ouvir de imediato.
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