Milano Cortina, 10 de fevereiro de 2026 — Em uma noite que misturou técnica, expectativa e carga simbólica, Daniel Grassl fechou o short program da patinação artística em quarto lugar provisório, com 93,46 pontos. O desempenho deixa o patinador italiano na condição de candidato a buscar avanço no programa livre de amanhã, quando as posições poderão ser redesenhadas decisivamente.
A liderança provisória ficou com o americano Ilia Malinin (108,16), seguido pelo japonês Yuma Kagiyama (103,07) e pelo francês Adam Siao Him Fa (102,55). É uma ordem que reflete, além da qualidade técnica, a estabilidade competitiva de atletas que vêm acumulando consistência nos circuitos internacionais.
Por outro lado, a prova reservou uma leitura menos favorável para o público italiano: Matteo Rizzo, um dos nomes com maior identificação nacional naquele que é um esporte de raízes e trajetórias pessoais, cometeu um erro que o relegou ao 16º lugar com 84,30 pontos. Rizzo terá, no programa livre, a oportunidade de transformar decepção em recuperação — uma narrativa comum na patinação, onde o componente mental pode ser tão decisivo quanto o físico.
No plano humano, a competição também trouxe memórias dolorosas. O norte-americano Maxim Naumov terminou o short program em 14º lugar. Filho dos patinadores Vadim Naumov e Evgenia Shishkova, Naumov chega a Milano Cortina marcado pela tragédia que vitimou seus pais no acidente do voo American Eagle 5342, em 29 de janeiro de 2025. A presença dele na pista transforma o desempenho em gesto de resistência e continuidade de memória dentro do esporte.
Para uma leitura mais ampla: a prova em Milano Cortina não é apenas disputa pontual. Trata-se de um espelho das estruturas contemporâneas da patinação — investimentos em técnica, programas coreográficos que dialogam com plateias e julgamentos que oscilam entre tradição e inovação. Em um país como a Itália, onde a patinação artística tem ganhado perfil nas últimas temporadas, o desempenho de atletas locais carrega também uma dimensão simbólica sobre formação, expectativas federativas e o relacionamento com uma torcida doméstica ávida por protagonistas.
O cenário técnico indica que, para subir ao pódio, Grassl precisará somar um livre limpo, com altura técnica e presença que convença tanto os painéis de pontuação quanto o público. A vantagem de quem lidera hoje é técnica, mas o dia seguinte promete ser decisivo: saltos combinados, melhoras nos componentes do patinador e gestão emocional definirão as posições finais.
À medida que a competição progride, vale observar não apenas as marcas numéricas, mas o que elas significam em termos de trajetória — como cada queda, cada salto bem-sucedido, reescreve histórias pessoais e coletivas. Amanhã, em Milano Cortina, o público verá se a narrativa de retomada de Matteo Rizzo se concretiza e se Daniel Grassl transforma o quarto lugar provisório em medalha.
Otávio Marchesini — repórter de Esportes, Espresso Italia. Observador das tramas culturais e históricas que atravessam o esporte moderno.






















