Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
No day after da cerimônia de abertura dos Jogos em San Siro, as atenções se distribuíram entre arte, protesto e ausências com forte significado simbólico. Andrea Varnier, diretor-executivo da Fundação Milano Cortina 2026, respondeu em coletiva às questões que dominam o debate público: as críticas ao segmento musical com Ghali, as vaias dirigidas a delegações e a autoridades e a não participação — prevista — de Jannik Sinner.
Sobre as contestações nas redes que alegavam uma espécie de censura a Ghali, Varnier adotou tom comedido e avaliador: “Eu vi as imagens e achei muito bonito o segmento do Ghali”, afirmou, defendendo a escolha estética da direção. A sequência foi descrita por ele como uma coreografia de jovens dançarinos que se transformavam numa coluna olímpica, uma solução coletiva pensada pela regia televisiva para priorizar o conjunto em vez do indivíduo. Para Varnier, esse gesto visual teve contribuição relevante para a cerimônia.
Ghali, por sua vez, manifestou desconforto público ao reclamar da não autorização para recitar um trecho da poesia de Gianni Rodari também em árabe — uma queixa que alimentou o debate sobre representatividade cultural e liberdade artística num palco de visibilidade internacional.
Outro episódio que chamou a atenção foram as sonoras vaias registradas durante a entrada de algumas delegações e os sinais dirigidos a figuras presentes nas tribunas. Entre elas, o senador americano J.D. Vance, que acompanhou a cerimônia das arquibancadas e recebeu manifestações de desagrado por parte de uma parte do público. Varnier afirmou que, de seu ponto de vista dentro do estádio, ouviu sobretudo aplausos aos atletas norte-americanos e que tomou conhecimento das vaias apenas depois, pela imprensa e comentários posteriores: “Não posso dizer que apoio esse tipo de manifestação, eu vi muito apoio para os atletas”, declarou.
Por fim, a ausência do jovem astro do tênis italiano despertou curiosidade midiática. Varnier esclareceu com tranquilidade que a participação de Jannik Sinner não estava prevista na cerimônia. Mais do que um gesto simbólico, Varnier lembrou que Sinner foi o primeiro voluntário dos Jogos, oferecendo-se para ajudar a lançar o programa de voluntariado que teve ampla adesão. “Ele deu uma contribuição fenomenal na fase inicial”, disse, sublinhando o valor institucional e social de tal compromisso, muitas vezes apagado pelo foco no espetáculo.
O balanço que emerge é o de uma cerimônia pensada para traduzir narrativas coletivas, mas imediatamente lida também como palco de fraturas e discursos divergentes. Seja através de uma coreografia poética, da palavra retida, das vaias na arquibancada ou da discreta ação de voluntariado de um atleta, o evento confirmou que os Jogos são, antes de tudo, um espelho das tensões e das expectativas que atravessam a sociedade contemporânea — local e globalmente.
Enquanto a organização procura estabilizar as leituras públicas, permanece o convite à reflexão: em quais termos a representação cultural e a expressão política podem conviver num espetáculo que pretende ser, simultaneamente, festa e palco de projeções identitárias?





















