Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em uma noite pensada como ritual e memória, a Milano Cortina despediu a patinação com um espetáculo que uniu passado, presente e futuro do esporte no mesmo gelo. No Fórum de Assago, a cerimônia de gala recolheu as estrelas que disputaram as provas olímpicas e ofereceu ao público uma última cartografia afetiva do que significa a patinação: elegância coreografada, pulsações competitivas e uma projeção identitária que, por alguns instantes, transcendeu a competição.
Quem abriu a noite foi a indelével Carolina Kostner. Símbolo de uma geração que remodelou a patinação italiana, Kostner retornou à pista após anos de ausência e brilhou ao som de Moon Lake. Sua presença teve o caráter de um cortejo: não apenas uma exibição técnica, mas uma afirmação de continuidade cultural — a lembrança de que os ícones também transmitem tradições.
O tom da gala alternou homenagens e novas promessas. Daniel Grassl dedicou sua apresentação a Ornella Vanoni, ao som de Sant’Allegria, e a sequência coral com trechos do Nessun Dorma, imortalizado por Luciano Pavarotti, reforçou o elo entre a dramaticidade operística italiana e a dramaturgia da patinação.
Entre os protagonistas internacionais, chamaram atenção as exibições de Kaori Sakamoto e do amplamente ovacionado Ilia Malinin. A clausura ficou por conta da jovem classe 2005 Alysa Liu, já apontada como uma das superstars do movimento feminino, cuja técnica e presença de cena traduzem a velocidade de renovação da modalidade.
O gala também foi ocasião para celebrar as conquistas italianas ao longo dos Jogos. No quadro de medalhas, o país somou resultados que merecem leitura além do pódio: a prata e o bronze não apenas premiam performances isoladas, mas contam a história de sistemas de formação, investimentos regionais e circuitos competitivos que vêm se consolidando.
No pattinaggio di velocità, o bronze de Andrea Giovannini foi o capítulo mais recente dessa narrativa de sucesso. Entre as vitórias de destaque, a Itália conquistou o ouro no perseguição por equipes masculina liderada por Davide Ghiotto, que superou os Estados Unidos, e a extraordinária campanha de Francesca Lollobrigida, ouro nos 3.000 metros e nos 5.000 metros, que marcou os Jogos com performances de rara consistência.
No patinação artística, o time italiano assegurou o bronze no team event, prova coletiva em que contribuíram as performances de Charlene Guignard e Marco Fabbri na dança, Sara Conti e Niccolò Macci nas duplas artísticas e as rotinas de Lara Gutmann e Matteo Rizzo nos singles. A medalha coletiva, conquistada em 8 de fevereiro, evidencia uma profundidade de grupo tão importante quanto os resultados individuais.
O retrospecto das medalhas — desde o ouro de equipe em 17 de fevereiro até os bronzes e recordes nacionais — precisa ser lido como síntese de uma presença italiana sólida na patinação contemporânea. O gala em Assago foi, assim, menos um adeus e mais uma liturgia: reafirmou símbolos, apresentou sucessores e inseriu a Itália em um mapa global onde a patinação segue sendo arte em movimento e espelho de uma sociedade que aposta no seu esporte.
Enquanto o gelo vai sendo guardado e as luzes do evento se apagam, permanece a impressão de que a patinação em Milano Cortina não foi apenas uma sequência de resultados, mas uma narrativa coletiva — e o gala, sua epílogo elegante.





















