Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — A abertura da prova de descida livre masculina em Milano‑Cortina trouxe à luz as contradições e as esperanças que atravessam o esqui italiano: uma medalha de prata que celebra talento e formação, e a persistente ausência do ouro que remete a memórias longas no tempo.
Na pista, Franjo von Allmen confirmou a supremacia do momento com o tempo de 1’51″61, levando o ouro. Logo atrás, a apenas 20 centésimos, ficou o jovem italiano Giovanni Franzoni, que conquistou a medalha de prata com uma prova marcada pela coragem e pela leitura estreita da neve. A terceira posição ficou com o veterano Dominik Paris, bronze a 50 centésimos do suíço.
Do ponto de vista técnico, o resultado sublinha duas leituras complementares. Primeiro, a consolidação de uma geração italiana que vem ganhando consistência nas disciplinas rápidas: além de Giovanni Franzoni, o décimo primeiro lugar de Mattia Casse e o 17º de Florian Schieder mostram profundidade, embora ainda insuficiente para quebrar uma sequência de quase três quartos de século sem ouro olímpico na descida masculina. A última vez que a bandeira italiana brilhou no alto do pódio foi com Zeno Colò, em Oslo 1952 — um fato que pesa no imaginário do esqui nacional.
Em segundo plano, o insucesso do grande favorito, o suíço Mario Odermatt, que ficou apenas na quarta colocação, revela a natureza imprevisível da descida: técnica, risco calculado e condições da pista podem virar o jogo em frações de segundo. Para a federação, o dia mistura satisfação pela medalha e a consciência de que a ambição máxima permanece à distância.
Para além da montanha, a programação de hoje traz outros testes significativos para os azzurri. No anel do gelo, a atleta Francesca Lollobrigida entra na final dos 3.000 metros do patinagem de velocidade, uma prova em que a experiência e a leitura tática do ritmo são determinantes. À noite, os holofotes se voltam para o jovem Ian Matteoli, que disputa a final do big air snowboard, um espetáculo que contrapõe a tradição alpina com as linguagens urbanas do snowboard.
Por fim, o hóquei feminino da Itália enfrenta um desafio duro contra a Suécia, potência consolidada da modalidade. A partida expõe novamente o fosso competitivo entre federações com estruturadas escolas de base e aquelas ainda em construção — um tema recorrente quando se analisa o esporte como fenômeno social e institucional.
O dia em Milano‑Cortina oferece, portanto, um retrato plural: a prata de Giovanni Franzoni é vitória e síntoma; é sinal da vitalidade de um sistema que produz talentos, ao mesmo tempo em que lembra que a glória máxima, no caso da descida masculina, é uma dívida histórica aberta desde Zeno Colò. O balanço final dependerá da capacidade das estruturas italianas de transformar pódios em programas sustentáveis e de longo prazo.





















