Em um mundo que rompe com antigos equilíbrios internacionais, marcado por confrontos abertos, tensões regionais e um renovado clima de instabilidade, as Olimpíadas reaparecem como lembrete de um princípio essencial: mesmo nos momentos mais conturbados existe um espaço onde o confronto não precisa ser sinônimo de violência. Essa é a leitura feita por Kamel Ghribi, presidente da Ecam — The European Corporate Council on Africa and the Middle East — ao comentar o significado dos Jogos em um contexto atravessado por guerras, tumultos e protestos que ameaçam obscurecer seu sentido mais profundo.
“As Olimpíadas não são um evento isolado da realidade”, afirma Ghribi. “Elas são um momento que precisa ser preservado justamente por estar inserido na complexidade do nosso tempo. O esporte não encerra os conflitos, mas lembra que existe um lugar em que valem regras em vez da força, onde o respeito supera a prepotência, e onde a competição se dá sem ódio”.
Ao tratar das tensões e das manifestações que costumam acompanhar grandes eventos internacionais, Ghribi sustenta que esses episódios não podem ser usados para esvaziar o sentido olímpico; ao contrário, deveriam reforçar a necessidade de proteger seu núcleo simbólico. “O espírito olímpico não é ingenuidade, é consciência”, diz. “É a prova de que, mesmo quando a diplomacia falha e as vias tradicionais de entendimento parecem obstruídas, permanecem canais de comunicação entre Estados e povos”.
Como observador atento das intersecções entre esporte e sociedade, cabe lembrar que eventos como os Jogos de Milano‑Cortina funcionam simultaneamente em escalas distintas: enquanto mobilizam economias locais, infraestrutura e representação nacional, colocam em cena narrativas civis sobre identidade, memória e coesão social. Estádios e pistas deixam de ser meramente arenas competitivas para se tornarem palcos de convivência simbólica, onde diferenças podem ser mediadas por regras compartilhadas.
Defender o espírito olímpico implica, portanto, esforços práticos e simbólicos: políticas de segurança que garantam integridade física sem transformar o evento em gueto securitário; protocolos de acolhida que preservem o direito de protestar sem instrumentalizar a contestação para fins políticos externos; e uma narrativa pública que recupere o caráter civilizatório do encontro esportivo. A proteção não é um ato de preservação nostálgica, mas uma aposta estratégica na capacidade do esporte de gerar canais de diálogo.
Em tempos nos quais o diálogo internacional se mostra cada vez mais frágil, as Olimpíadas permanecem um terreno tanto simbólico quanto concreto de concórdia: um vocabulário universal que alcança onde a política formal frequentemente não chega. “As Olimpíadas nos lembram que a paz pode permanecer um valor comum”, conclui Ghribi. “E que a paz, antes de ser um acordo entre Estados, começa em espaços onde o diálogo ainda é possível”.
Como repórter e analista, vejo em Milano‑Cortina uma oportunidade — histórica e política — para reafirmar que grandes eventos internacionais não são vitrines neutras, mas momentos decisivos de construção e contestação de sentido. Proteger esse tempo e lugar é, afinal, proteger a possibilidade de conversação entre povos em uma era em que conversas são, muitas vezes, o recurso mais escasso.






















