Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Na noite de encerramento dos Jogos de Inverno de 2026, a simbólica passagem de responsabilidade entre anfitriões foi protagonizada em Verona. A cerimônia na Arena di Verona marcou o momento em que a bandeira olímpica saiu oficialmente das mãos dos organizadores de Milano Cortina e foi entregue aos representantes que conduzirão o evento em 2030: as French Alps 2030.
Os protagonistas italianos do ato foram os prefeitos de Milão e de Cortina d’Ampezzo — Giuseppe Sala e Gianluca Lorenzi — que passaram a bandeira aos presidentes das regiões francesas envolvidas na organização: Fabrice Pannekoucke, da região Ródano-Alpes, e Renaud Muselier, da Provença-Alpes-Costa Azul. O gesto, ceremonial por definição, sintetiza uma continuidade institucional e simbólica entre duas gerações de Jogos alpinos.
Mais do que um protocolo, o ato revela camadas históricas e culturais: os Jogos de Inverno percorrem um mapa europeu que mistura identidade regional, memória coletiva e interesses econômicos. A entrega da bandeira olímpica representa a aceitação pública de um pacto — não apenas esportivo, mas de legado — sobre infraestrutura, sustentabilidade, turismo e preservação de territórios de montanha.
Para a Itália, o encerramento em Verona fecha um ciclo de visibilidade internacional e coloca em discussão o balanço do investimento: instalações temporárias versus permanentes, impacto sobre comunidades locais e a capacidade de transformar eventos em oportunidades duradouras. Para a França, a responsabilidade de 2030 começa no ato simbólico e segue com a exigência de conectar regiões administrativas distintas sob um projeto coerente de organização e promoção das French Alps 2030.
O momento na Arena di Verona também evidencia a diplomacia esportiva entre países vizinhos. Olimpiadas são, por natureza, fenômenos multilayer: atraem atenção global, movimentam economias regionais e, sobretudo, reconstroem narrativas territoriais. A transição de 2026 para 2030 reafirma o papel das montanhas como palco de tecnologias esportivas e como terreno de disputa por modelos de desenvolvimento sustentável.
Enquanto a bandeira muda de mãos, permanece a pergunta que sempre acompanha grandes eventos: como converter o brilho de duas semanas em benefício duradouro para as populações locais? A resposta exigirá planejamento político, controle financeiro e escuta das comunidades alpinas — aspectos que terão de ser negociados entre Paris, as regiões envolvidas e atores locais nos próximos anos.
O episódio em Verona foi curto e simbólico, mas transporta consigo responsabilidade de longo prazo. A passagem da bandeira olímpica é, portanto, menos um final e mais um compromisso público: de quem entrega e de quem recebe, de preservar o patrimônio natural dos Alpes e de traduzir a celebração esportiva em um legado palpável para as próximas décadas.





















