Milano Cortina — Em meio às atenções voltadas para a cerimônia de abertura dos Jogos de Inverno, uma questão política repercutiu nos corredores do evento: os vaias dirigidas ao vice‑presidente dos Estados Unidos, JD Vance. O porta‑voz do CIO (Comitê Olímpico Internacional), Mark Adams, comentou a polêmica em coletiva após a cerimônia, destacando o valor do comportamento desportivo.
Adams afirmou que esteve presente no estádio e que, apesar das manifestações, o momento vivido foi marcante pelo respeito. “Eu estava no estádio. Somos em grande parte uma organização esportiva e ver a equipe dos Estados Unidos apoiada pelo público como foi, no pleno respeito do fair play, foi fantástico. Então estamos muito satisfeitos”, disse o porta‑voz.
As declarações de Adams procuraram criar distância entre o gesto pontual das vaias e a avaliação institucional do movimento olímpico. Segundo ele, o que interessou ao CIO foi a demonstração de apoio à delegação norte‑americana e, sobretudo, a preservação do espírito desportivo: “Em geral, diria que nos eventos esportivos gostamos de ver o fair play“.
Além da leitura sobre comportamento do público, Adams sublinhou outro aspecto com implicações práticas para o futuro: a participação visível da administração dos EUA nos Jogos é avaliada de forma positiva pelo Comitê. Com Los Angeles 2028 no horizonte, ter a administração estadunidense envolvida “é um aspecto muito positivo para o movimento olímpico”, afirmou. Para o porta‑voz, sinais de boa relação com o governo são “apenas boas notícias”.
Enquanto a frase do COI busca apaziguar tensões, o episódio abre uma leitura mais ampla sobre a interseção entre esportes e política. Estádios sempre foram espaços onde identidades e emoções coletivas se manifestam — e onde, por vezes, o simbólico encontra o político. As vaias a uma autoridade política durante um evento esportivo não são novidade histórica, mas a gestão institucional dessa reação, especialmente em um palco global como Milano‑Cortina 2026, exige sutileza: equilibrar a neutralidade olímpica com o reconhecimento de que torcedores — cidadãos — expressam opiniões.
Do ponto de vista do movimento olímpico, a prioridade declarada é a manutenção de um ambiente em que a competição produza convivência e respeito mútuo. Essa ênfase na conduta pública reflete também um cálculo institucional: a credibilidade dos Jogos depende tanto da excelência atlética quanto da capacidade de serem percebidos como arenas de coexistência cultural, e não apenas como vitrines políticas.
Como analista, observo que episódios assim tendem a reverberar além do minuto de vaia. Eles alimentam debates sobre diplomacia esportiva, o papel das delegações estatais e o futuro de uma olimpíada que, cada vez mais, negocia espaços entre espetáculo, política e memória coletiva. O comentário de Mark Adams, sóbrio e voltado para uma leitura institucional positiva, é parte dessa tentativa de administrar a narrativa enquanto os Jogos seguem em andamento.
Otávio Marchesini — Repórter de Esportes, Espresso Italia





















