Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — O episódio do casco personalizado nas Olimpíadas de Milano-Cortina ganhou um novo capítulo com a revelação de que a esquiadora freestyle ucraniana Kateryna Kotsar também recebeu orientação do Comitê Olímpico Internacional (CIO) para não utilizar um capacete com a frase em inglês “Be Brave like Ukrainians” (“Sejam corajosos como os ucranianos”).
Segundo a atleta, o comunicado do CIO chegou cerca de uma semana antes da abertura dos Jogos, classificando o elemento no equipamento como forma de propaganda, o que impediria seu uso durante a competição. Em entrevista a uma emissora ucraniana, Kotsar disse: “Por falta de experiência, conhecimento e, provavelmente, por segurança, eu simplesmente troquei o capacete e agora ele traz apenas uma pequena bandeira ucraniana”. Trata-se da estreia olímpica da jovem atleta, que optou por não prolongar o embate no calor do evento.
Este é o segundo episódio público envolvendo o mesmo tipo de restrição: anteriormente, o CIO havia vetado o capacete do praticante de skeleton Vladyslav Heraskevych, onde estavam impressos os rostos de atletas ucranianos mortos durante a invasão russa. A proibição gerou repercussão intensa na Ucrânia e vai além de uma simples disputa sobre regulamentos técnicos — toca no papel do esporte como espaço de memória e testemunho.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky manifestou apoio a Heraskevych, lembrando que entre as figuras representadas no capacete estavam o patinador artístico Dmytro Sharpar, morto perto de Bakhmut, e o biatleta de 19 anos Yevhen Malyshev, morto próximo a Kharkiv. Essas imagens e nomes convertem equipamentos esportivos em artefatos de luto e de afirmação de identidade nacional — um gesto que encontrou resistência na leitura do CIO sobre a neutralidade dos Jogos.
Da sala de imprensa do Comitê, o porta-voz Mark Adams procurou modular a posição institucional: “Queremos que o atleta compita, não desejamos que surjam especulações; existem regras a serem seguidas. Vamos contactar o atleta e reiterar que ele tem oportunidades para expressar sua opinião e sua dor nas redes sociais, em coletivas e na mixed zone”. A declaração reforça um princípio que o movimento olímpico tenta preservar — o caráter não político da competição — mas também evidencia os limites dessa neutralidade quando confrontada com guerras e perdas reais.
Como analista, é preciso reconhecer a tensão legítima entre duas ordens de valor: a proteção de um espaço esportivo que busca ser inclusivo e livre de instrumentalizações políticas, e o direito de atletas, especialmente aqueles provenientes de territórios em conflito, de portar símbolos de memória e resistência. A decisão do CIO não apaga a carga simbólica que motivou os capacetes; ao contrário, realça a função do esporte como palco onde identidades nacionais e dores coletivas continuam sendo disputadas e lembradas.
Ao final, a escolha de Kotsar — substituir o capacete e manter apenas uma pequena bandeira — pode ser lida como uma forma pragmática de preservar sua estreia olímpica. Mas o debate permanece: até que ponto as regras de neutralidade devem tolerar ou silenciar expressões que, para muitos atletas, são parte inseparável de suas narrativas pessoais e nacionais?





















