Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em um episódio que mistura esporte, memória e política, o Comitê Olímpico Internacional (CIO) reiterou nesta quarta-feira seu desejo de conciliar a liberdade de expressão do atleta ucraniano Vladyslav Heraskevych com a regra de neutralidade aplicada ao espaço de competição em Milano Cortina. A questão gira em torno do capacete que o piloto de skeleton declarou querer usar durante a prova, uma peça dedicada aos mortos na guerra na Ucrânia.
Mark Adams, porta-voz do CIO, afirmou em entrevista coletiva que a organização vai contatar o atleta e lembrá-lo das várias alternativas para manifestar seu luto e sua posição. “Vamos contatar o atleta hoje e reafirmar as muitas, muitas oportunidades que ele tem para expressar sua dor. Como discutimos antes, ele pode fazê-lo nas redes sociais e nas coletivas de imprensa na mixed zone, então vamos tentar falar com ele e convencê-lo. Queremos que ele compita”, disse Adams.
A linha do CIO é clara: não há intenção de silenciar o gesto, mas de preservar o momento da prova como livre de distrações políticas. “Queremos que todos os atletas tenham o seu momento, e esse é o ponto — acrescentou Adams. Os atletas querem que aquele momento específico, no campo de competição, seja livre de qualquer distração. Ele pode, e nós o encorajaríamos, expressar sua dor, pode mostrar o seu capacete e falar sobre isso na mixed zone. Não é a mensagem, mas o lugar que conta.”
De forma pragmática, o porta-voz detalhou a orientação: “Queremos pedir que ele se expresse antes e depois das provas, não durante.” A proposta do CIO é funcionada pela mesma tensão que atravessa o esporte contemporâneo — a dificuldade de separar o gesto público de um atleta, que carrega história e simbolismo, do regulamento que busca manter as arenas olímpicas como espaços de neutralidade.
Essa controvérsia não é isolada no arquipélago de debates que envolve as Olimpíadas. A aplicação da Regra 50 do Estatuto Olímpico, que limita demonstrações políticas no local de competição, tem sido testada repetidamente nas últimas edições dos Jogos. A singularidade do caso de Heraskevych reside na natureza da peça — um capacete que é tanto equipamento quanto símbolo de memória coletiva para muitos ucranianos.
Como analista que observa o esporte como fenômeno social, não como mero resultado, vejo nessa disputa a tensão entre duas responsabilidades legítimas: a de um atleta que deseja dar voz à sua dor e à sua nação, e a de uma instituição que tenta preservar uma arena internacional de encontro esportivo. A alternativa sugerida pelo CIO — usos públicos fora da pista, nas redes e na imprensa — é uma tentativa de mediação, que pode satisfazer aos dois polos, desde que haja diálogo sensível com o competidor.
Ao final, a posição do Comitê foi expressa com pragmatismo: “É humano o que está acontecendo, esperamos que haja uma conversa com o atleta para explicar nosso ponto de vista. Está no interesse de todos que ele possa competir, como está no interesse de todos ouvir o que ele tem a dizer.” Resta acompanhar como Heraskevych responderá ao apelo e como esse breve, porém denso, episódio ficará inscrito na memória simbólica dos Jogos de Inverno 2026.






















