Por Otávio Marchesini — Em uma noite que transformou o estádio em palco da memória coletiva italiana, os representantes do voleibol foram protagonistas destacáveis da cerimônia de abertura dos Jogos de Milano Cortina. No gramado iluminado de San Siro, seis atletas que simbolizam, cada um a seu modo, trajetórias e identidades do esporte italiano desfilaram sob os olhos do país.
A delegação do voleibol contou com três nomes da seleção feminina — a capitã Anna Danesi, acompanhada por Paola Egonu e Carlotta Cambi — e três da seleção masculina: o capitão Simone Giannelli, Simone Anzani e Luca Porro. A presença deles na festa inaugural foi mais do que um rígido protocolo: representou a visibilidade de um desporto que, em diversas frentes, construiu narrativas de sucesso e de identidade nacional.
Anna Danesi resumiu a dimensão pessoal do momento: “Foi tudo fantástico e maravilhoso, algo que vai além das minhas mais otimistas expectativas na vida”, disse. A jogadora descreveu a sensação de reviver aqueles instantes ao acompanhar as histórias e imagens publicadas nas redes sociais: “Ao acordar, vendo todas as stories no Instagram e as imagens de ontem à noite, estou saboreando tudo por completo. Da onda de mensagens e afeto que estou recebendo agora, parece reviver os momentos mais belos das minhas vitórias. Estar presente na cerimônia de abertura de uma Olimpíada é, para mim, uma vitória, porque o espírito olímpico é algo que eu carreguei desde pequena e que só via na TV”.
O episódio da passagem da tocha, com a participação de Simone Giannelli, ganhou tons quase míticos na narrativa coletiva: “Uma emoção incrível. Nunca pensei na vida que poderia viver outro momento desse tipo. Foi realmente insano”, declarou o capitão. Em sua fala, a gratidão e o espanto coexistem, refletindo a responsabilidade simbólica que a cerimônia confere a quem a vive em nome do esporte.
Como observador atento da história esportiva italiana, destaco que a presença dos azzurri do voleibol em San Siro não é apenas um episódio isolado de celebração. É um gesto significativo na construção de um repertório público que liga clubes, seleções e grandes eventos — e que reforça como atletas se tornam vetores de memória e referências sociais. Hoje, no campo iluminado da modernidade midiática, as imagens de Egonu, Danesi, Giannelli e dos demais são parte de um arquivo simbólico que atravessará gerações.
San Siro, tradicionalmente um santuário do futebol, abriu espaço para uma iconografia olímpica que mistura regionalismo e projeção internacional. A escolha de atletas do voleibol para figuras de destaque na cerimônia sublinha a pluralidade esportiva da Itália: não só o futebol, mas modalidades coletivas que fomentam coesão social e oferecem repertórios de representação feminina e masculina igualmente relevantes.
Em última análise, a participação dos jogadores e jogadoras na cerimônia é também um lembrete de que os Jogos — e suas aberturas espetaculares — são ritos contemporâneos de afirmação nacional. Para os atletas, como disseram Danesi e Giannelli, trata-se de um reconhecimento íntimo e público. Para a sociedade, é a confirmação de que o esporte continua a ser um espelho das grandes questões culturais e identitárias da Itália.
Espresso Italia — cobertura de Esportes






















