Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O entusiasmo em torno dos Giochi Invernali de Milano Cortina não se limita às pistas: é palpável também nas salas de estar e nas plataformas digitais. Em declaração oficial, Anne-Sophie Voumard, diretora de Television and Marketing Services do Comitê Olímpico Internacional, descreveu uma resposta popular que surpreende pelos números e pela intensidade. Segundo dados divulgados, aproximadamente 2 em cada 3 italianos assistiram ou estão assistindo aos Jogos — um índice que ultrapassa o observado em Paris 2024 e que, segundo Voumard, supera o total combinado das três edições anteriores dos Jogos de Inverno em termos de audiência italiana.
O fenômeno italiano é parte de uma onda mais ampla. Na França, país-sede dos próximos Jogos de Inverno, as transmissões já somaram mais de 50 milhões de telespectadores, marca qualificada pela dirigente como “realmente notável” e superior aos números de Torino. Nos Estados Unidos, a NBC registrou uma audiência em torno de 24,3 milhões até segunda-feira, o que torna estes os Jogos de Inverno mais vistos desde Sochi 2014.
Além dos países tradicionalmente vinculados ao calendário invernal, houve penetração relevante em territórios com menos vínculo cultural com neve e gelo, como Brasil e Austrália, e também explicita uma resposta positiva em várias partes da Ásia, apesar dos obstáculos impostos pelos fusos horários. Esses números expõem um dado econômico e simbólico: os Jogos ainda funcionam como um produto de massa capaz de ativar audiências diversificadas quando há investimento em narrativa, transmissão e presença digital.
O crescimento não se restringe à televisão linear. No ambiente digital, as plataformas de streaming somaram até agora 11,2 bilhões de minutos transmitidos — um aumento de 62% em relação ao agregado de todas as edições anteriores dos Jogos de Inverno. Essa migração exige reflexões práticas: direitos de transmissão, formatos de conteúdo para públicos jovens e métricas que valorizem o consumo fragmentado.
Curiosamente, iniciativas informais e espaços de entretenimento virtual desempenharam papel significativo na expansão do alcance: atividades tematizadas pelo Comitê Olímpico Internacional no jogo Brookhaven, dentro do ecossistema Roblox, acumulam mais de 1,3 bilhão de visualizações — cifra cerca de 60 vezes maior que a registrada por Paris 2024 em plataformas similares. A estratégia também envolveu parcerias com players do entretenimento, como a colaboração para conteúdo com a Netflix, destinada a aproximar atletas e histórias de um público mais amplo, apresentando a “história por trás da qualificação”.
Do meu ponto de vista, a dimensão deste sucesso é dupla: por um lado confirma que a força simbólica dos Jogos permanece intacta; por outro, evidencia como a modernização das formas de acesso — streaming, jogos digitais, conteúdo sob demanda — redefine o que medimos quando falamos em público. Para clubes, federações e patrocinadores, a lição é clara: a narrativa esportiva precisa conviver com um ecossistema multimídia que transforma espectadores em comunidades.
Os números oficiais ainda evoluem, mas já deixam um rastro interpretativo relevante: Milano Cortina não é apenas uma celebração atlética; é um momento de reconfiguração da presença olímpica no cotidiano das nações, um teste sobre como o esporte se comunica com as sociedades no século 21.






















