Ao fim da cerimônia de encerramento na Arena di Verona, o balanço oficial dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milano‑Cortina foi sintetizado com clareza pelo presidente do CONI, Luciano Buonfiglio: “Um’Olimpiade da 30 e lode. Trinta são as medalhas e a lode é porque funcionou tudo”. A frase resume não apenas o desempenho esportivo, mas a visão institucional que norteou uma sede distribuída, que procurou transformar uma obrigação logística em opção estratégica.
Nas coletivas de encerramento também passaram pela sala de imprensa Giovanni Malagò, presidente da Fondazione Milano‑Cortina, e Andrea Varnier, seu administrador‑delegado. Diferentes olhares, o mesmo juízo: os Jogos foram bem‑sucedidos. Buonfiglio destacou a evolução do entusiasmo e a demonstração da capacidade organizativa italiana, lembrando que, somados os resultados de Paris e de Milano‑Cortina, a Itália figura entre os Top 4 do esporte mundial. “Se mettiamo insieme i risultati di Parigi e i risultati di questa Olimpiade di Milano Cortina, vi posso confermare che siamo tra i primi quattro Paesi al mondo”, afirmou o dirigente, vinculando mérito esportivo a políticas de sistema.
Do ponto de vista organizacional, a Fondazione recebeu um agradecimento público no encerramento da 145ª sessão do CIO, quando foi brindada com uma standing ovation — gesto que Malagò qualificou como raro na história das sessões. “A detta di chi ha più esperienza di me non c’è mai stata nella storia delle sessioni una standing ovation così”, comentou, colocando o reconhecimento internacional ao lado de um balanço interno: “Terminano anni complicati, ma não ci siamo nascosti dietro agli alibi”. Malagò ressaltou o papel discreto, porém decisivo, de dois ministérios — Interni e Difesa — e destacou Christophe Dubi como figura-chave para o sucesso operacional.
Os números sustentam as palavras: foram vendidos aproximadamente 1,3 milhões de ingressos, com ocupação média de 88% e um verosímil sold‑out para a estreia do esqui de montanha. Para Varnier, a edição provou, na prática, que o modelo difuso — com provas distribuídas por um território mais amplo — é viável e traz vantagens de sustentabilidade e legado. “Abbiamo fatto di necessità virtù: non avevamo alternative, ma ci siamo buttati con coraggio sul modello diffuso”, disse, assinalando que a escolha foi também uma resposta às limitações e oportunidades do país.
Como analista atento às interseções entre esporte e sociedade, é importante sublinhar que a leitura do sucesso não pode se limitar aos números ou ao elogio institucional. A aposta no modelo disperso coloca em evidência debates sobre regionalismo, infraestrutura e memória coletiva: realizar competições em várias localidades exige coordenação política e logística, mas cria pontos de contato diretos entre a população e o evento. A ocupação elevada e a recepção internacional sugerem que esse formato pode ser um caminho para conciliar ambição esportiva e responsabilidade territorial — uma lição relevante para cidades e federações que pensarão os próximos megaeventos.
Em síntese, Milano‑Cortina fecha o seu capítulo com uma combinação rara de performance esportiva, reconhecimento institucional e inovação organizativa. Restam perguntas sobre acompanhamento do legado, manutenção das estruturas e aproveitamento do impulso popular — perguntas que determinarão se o rótulo de “30 e lode” se transformará em mudança duradoura ou em um bom momento efêmero.
Otávio Marchesini
Repórter de Esportes — Espresso Italia






















