Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O Villaggio Olimpico de Milano Cortina 2026 voltou a atrair atenções nas redes sociais não apenas pela infraestrutura, mas pela lista de itens de atendimento aos atletas que muitos consideram surpreendente: entre os objetos disponibilizados gratuitamente estão profilattici e assorbenti. Vídeos publicados por atletas mostram satisfação com a oferta de serviços e detalhes das acomodações, do cardápio às áreas de descanso.
Mensagens de atletas circulam com uma tonalidade de aprovação prática — “aqui tem tudo” — e testemunham que o suporte vai além do alojamento e da alimentação. As imagens registram camas, espaços de relaxamento e a presença de itens de higiene e prevenção que compõem uma política consolidada nos Jogos: a disponibilização de preservativos é uma prática olímpica conhecida e orientada por razões de saúde pública e prevenção.
O presidente da Regione Lombardia, Attilio Fontana, retomou o tema lembrando a tradição sanitária que remonta aos Jogos de Seul, em 1988, quando a distribuição de preservativos passou a ser adotada oficialmente com o objetivo de sensibilizar atletas e jovens para a prevenção das doenças sexualmente transmissíveis. Segundo Fontana, fornecer esses itens no Villaggio não é novidade e faz parte de uma organização que, em suas palavras, prioriza a saúde, a prevenção concreta e o bom senso.
Do ponto de vista estrutural, a região também ressalta o papel permanente das intervenções sanitárias ligadas ao evento: investimentos como o aprimoramento do hospital Niguarda, em Milão, e obras em áreas da Valtellina foram citados como legados que permanecerão para a população local após o término dos Jogos. Essa articulação entre atendimento imediato aos participantes e infraestrutura de longo prazo é um traço significativo da concepção lombarda da organização.
Além dos materiais de prevenção e higiene, o regulamento do Villaggio prevê que os atletas podem receber visitantes: é permitida uma pessoa por dia, mediante solicitação formal feita com 24 horas de antecedência, o que demonstra um equilíbrio entre acolhimento, privacidade e controle logístico.
Há, neste episódio, um aspecto cultural que merece leitura atenta. A surpresa pública diante da presença de preservativos no alojamento olímpico revela zonas de desconforto e tabus que persistem no imaginário coletivo. Ao mesmo tempo, essa prática olímpica é um lembrete de que o esporte, especialmente em eventos transnacionais, exige respostas de saúde pública que ultrapassam a dimensão meramente competitiva.
Enquanto a atenção da mídia recai sobre imagens e pequenos detalhes do dia a dia no Villaggio, permanece a ideia central: a grande competição convive com uma logística complexa e com decisões que articulam prevenção, dignidade e legado. O fornecimento de profilattici no Villaggio Olimpico não é um gesto isolado, mas parte de um conjunto de medidas que traduzem a responsabilidade institucional em torno da saúde dos atleti e das comunidades anfitriãs.
Em suma, a surpresa fora do campo serve para recordar que os Jogos são também um laboratório de políticas públicas, onde normas aparentemente simples — como ter preservativos à disposição — funcionam como indicadores das prioridades sanitárias e sociais de uma sociedade que acolhe um megaevento.






















